31 de março de 2009

Instigação 2




Entrei em casa, passos lentos, ar tenso…muito tenso, estava impossível descontrair, mas não podia ir directo ao assunto…o impacto seria desastroso, não seria justo…mas quem sou eu para estar aqui a falar de justiça…?!
- Boa noite, querido…
Quis responder tão depressa que a minha voz falhou…gaguejei…mas em seguida fiz de tudo para que o meu tom de voz se permanecesse isento de variações, e tentei comportar-me o mais natural possível, com sucesso, julgo…
Terminado o jantar, ela pediu-me que recolhesse a loiça como de costume…respondi de forma afirmativa, mas ridiculamente a minha voz tornou a falhar, mas ela não esboçou qualquer atitude de repreendimento ou admiração.
Por fim, deitados…ela acabara de ler mais um capítulo do seu Romance, parecia entusiasmada, porém o sono agora é que falava mais alto e, aos poucos foi-se aconchegando e aninhando a mim, tão encolhida que nem conseguia ver a sua face.
- Amo-te… - despediu-se ela com uma voz abafada.
Nessa altura já eu estava banhado em lágrimas, de tanta dor. Sofrendo em silêncio, apertei-a carinhosamente e retribui-lhe o sentimento com um “Amo-te também”, falso aos “teus” olhos, mas incrivelmente sincero, aos meus…
Ela serpenteou na cama, de modo a acomodar-se e adormeceu de seguida, não se apercebendo de nada de invulgar no meu rosto, nem no meu tom de voz…

Instigação


Há muito que me olhava de uma forma um tanto estranha…provocadora, diria…Mas poderá ser tudo fruto da minha imaginação, sei lá o que vai na cabeça de uma mulher.
O certo é que havia algo diferente na sua atitude, possivelmente com a chegada da Primavera, as roupas mais descapotáveis…
Confesso que, apesar de ser extremamente profissional, nunca pude deixar de reparar no seu aspecto físico, ela é realmente sensual e ultimamente não tenho conseguido separar as coisas, mas também tenho a perfeita consciência que a culpa não vem da minha parte…e isso preocupa-me, bastante.

Do outro lado:
Ela acabara de chegar a casa, exausta como sempre, mas o seu dia ainda não acabou, falta preparar o jantar…e aguardar a minha chegada.

O meu dia chegou ao fim, mas antes de sair fui, inesperadamente, chamado ao gabinete da Superior. Precisava da minha opinião, relativamente ao seu novo projecto. Colocou os rascunhos espalhados pela secretária e debruçou o seu grande decote sobre os mesmos…gelei naquele preciso momento.
Tagarelou durante quase dois minutos, sem parar, e eu passava a mão pela cara, acenava com a cabeça, mas por momento algum consegui acompanhar o seu raciocínio.
No final, confessou que a minha chamada ao gabinete não passava de um pretexto…aproximou-se de mim e…
…6 anos depois estava eu diante o meu primeiro adultério. Mais do que arrependido, estava aterrorizado, sem saber o que fazer ou dizer, vesti-me em um segundo e saí porta fora, sem pronunciar uma única palavra.
O pior, o pior estará para vir…

30 de março de 2009

O outro lado do mundo - parte II


De imediato a Enfermeira injecta algo pelo soro que me arranca de um estranho sentimento de queda desamparada.
Oiço por 2 segundos um silêncio avassalador que comparo com o instante imediato que precede o rebentar de uma onda gigantesca.
Sinto-me lá no cimo, mas sou imediatamente arremessada com toda a violência para um turbilhão centrifugador, que atribuo à dor de voltar a entrar num corpo que à instantes estava separado de mim.
Tudo isto desaparece quando oiço pela primeira vez o meu coração a bater. Estranho este "ouvir" acompanhado de uma lenta sensação de calor progressivo.
"Temos pulso!" - diz um Médico num tom surpreendido mas esperançado.
Tento agora com todas as minhas forças abrir novamente os olhos, perguntar o que se passou e agradecer a todos aqueles anónimos vestidos de branco que não fazem manchetes de jornais, nem aparecem nas noticias, e que no entanto me deram hoje e continuarão a dar dia após dia a oportunidade a alguém de viver novamente, mas novamente nem os lábios se mexeram, nem os olhos se abriram.
Começo a respirar cada vez mais e melhor, mas um mais que ainda é muito pouco.
Dói-me o peito, os braços e a garganta, mas nada apaga esta sensação de vida firme.
Oiço alguém dizer que foram dez longos minutos, agora que tudo acalmou já sinto o claro da luz fluorescente em cima da minha cara.
A acalmia é agora interrompida pela empregada de limpeza que com a sua vassoura varre um monte de embalagens, compressas, tubos e luvas que se juntou à volta da minha maca.
Oiço ao longe a voz da minha filha preocupada, mas aposto que está longe de saber da gravidade de tudo aquilo que se passou.
Já não quero saber do casamento, do vestido branco pérola ou das viagens...
Apenas quero sentir a pele dela a tocar na minha mão inerte.
Isso, só peço isso!

29 de março de 2009

Daqueles dias...



Este sol já começa a pedir um acordar de domingo cedo, pegar em duas ou três alfaces, tomates e pimentos e trazer a família atrás.
Ir à praça pela fresca, comprar aquela sardinha com molho, dois pães de Mafra a estalar, ir para o meio de uma mata, e toca de meter o fogareiro acesso.
Estender a toalha no chão, uma pedra em cada canto, e pôr a mesa.
Comer enquanto a fome do dia assim o entender.
Desenrolar a cama de rede, estica-la entre dois pinheiros, assim naquela altura logo a seguir ao almoço, em que a barriga está mesmo cheia, e começa a dar aquela quebra que tão bem conhecemos nos dias de semana, fazer um pouco de balanço na rede, para a esquerda, depois para a direita e deixar-nos ir...
Até que acordamos naturalmente, sem despertador, ou telemóveis a tocar, apenas porque o vento soprou mais forte ou porque caiu uma pinha mesmo ali à frente.
Ler umas páginas do nosso livro, dar uns chutos na bola com os miúdos, arrumar as trouxas e voltar a casa com o sentimento de dever cumprido.

27 de março de 2009

Conversas escorregadias

Saio à rua a meio da noite.
Não está frio,
está antes aquele... ar fresco.
Pensamento inocentes,
As conversas parvas,
As verdades,
As confissões,
Dizer mais do que se quer,
Esconder menos do que se devia...
A noite continua lá fora.
Voltamos para dentro...
Ao quente, aconchegado.
Lá fora, elas ficam agora, cruas, frias e sózinhas,
... a rua e a... noite.
Sem nós, sem mim e sem ti.

26 de março de 2009

Apetecimentos III





Uma pergunta a título exploratório...


- Há quanto tempo não andam de bicicleta?

25 de março de 2009

Noite de Inverno


Aquela noite, tinha tudo para ser mais uma noite banal de risos e gargalhadas, histórias e partilhas. O que Eagler não sabia é que aquela noite iria ser uma das mais importantes da sua vida. Pelo menos, iria ser o principio de uma mudança radical da sua maneira de pensar, ver e agir sobre a vida sentimental.

Tinha saído com o seu grupo. Este agora incorporava novas gentes, mas a velha carrinha continuava a mesma. Apesar de velha era tratada por todos com um grande carinho, não fosse ela começar a falar e revelasse então tantas histórias e segredos quer só ela e os intervenientes sabiam.

Continuando sem variar da rotina habitual, ao fim de uns quilometros “a carrinha” voltou a parar. Parou e não pegou mais durante algumas horas!

Enquanto alguém, armado em mecânico, se encarregava de ver o que se passava com “a carrinha” Eagler sentou-se a contemplar a noite.

Era uma noite estranhamente quente de Inverno. A bom da verdade era a primeira noite em que saia apenas com uma t-shirt.

O manto azul escuro lá em cima deixava ver um céu estrelado. Talvez fosse um bom augúrio ou talvez não. O certo é que ele sentia-se inexplicavelmente feliz.

Estava ainda absorvido nos seus pensamentos, tentando compreender o céu estrelado lá em cima e o seu significado, quando reparou que alguém se sentara ao seu lado, alguém que fez com que a noite ficasse ainda mais quente, alguém que aparentemente apenas tinha o mesmo sentido que ele – a contemplação do céu.

24 de março de 2009

Sociedade



"Que linda falua que lá vem, lá vem, é uma falua que vem de Belém..."

Cantava eu com toda a convicção, e apesar de não fazer a mínima ideia do que seria uma "Falua", estava contente por ela vir de Belém, fosse lá ela o que fosse, sabia que vinha ao pé da minha casa!

"Quero-vos numa fila, dois a dois, de mãos dadas, ai de quem sair da fila! Oiçam lá o que vos estou a dizer, ninguém atravessa a estrada sem nós dizermos! Eu vou à frente e ela vai atrás, se algum de vocês se porta mal, acaba-se já com o passeio!"

Confesso que depois de ouvir este pré-aviso, nem sequer me atrevia a largar a mão do meu colega, lá íamos os dois sempre juntos, na linha dos que se perfilavam à nossa frente. Qual polícia, qual quê, eu tinha era respeito pela minha educadora!
Hoje vejo um grupo de miúdos da pré-primária (como se chamava antigamente), com quatro educadoras e dois agentes da Polícia Municipal.
Uma turma muito mais pequena que a minha da altura, com o triplo de adultos, sendo que um terço deles são agentes de autoridade...
Eu ia para a pré-primária sozinho, sem companhia, tinha cinco anos, atravessava estradas, seguia passeios, trepava a árvores, esfolava joelhos e partia a cabeça.
Que é que isto quererá dizer?
Sinceramente não quero mesmo pensar que eles nunca terão uma infância como a minha.
Para onde nos estamos a dirigir? Para uma sociedade mais segura? Com menos suspeita, e mais e melhores condições?
Não!
A segurança passa pela formação moral das pessoas, e não com a escolta de um grupo de miúdos enquanto passeiam pelas ruas que contornam a escola. A culpa não está na Polícia, mas sim nos pais que teimam em não colocar limites e ceder aos caprichos dos filhos, que amanhã serão os burlões, chantagistas, ladrões e raptores da nossa sociedade.
O que eu não tinha que penar para que os meus pais me oferecessem uma pastilha no único dia que iam ao café, ao domingo. Era algo que acontecia, direi com uma frequência quinzenal.
Hoje não vejo ser negado a uma criança um ovo kinder, um gelado que pede agora e depois já rejeita, este chocolate ou aquela boneca.
Só espero que quando for pai, não me esqueça disto tudo...

22 de março de 2009

Corrida na Ponte 25 Abril



Mais do que um acto isolado, já se começa a tornar numa necessidade anual. A de ver Lisboa de uma perspectiva diferente e unidade de tempo retardada.
60.000 pernas, 30.000 pessoas, e todas elas com o mesmo objectivo. Sem vencedores nem vencidos, apenas chegar ao final.
Estranha esta coisa que se entranha em jeito de desafio pessoal, em que a tentação para nos transcendermos fisicamente cresce à medida que passamos e somos passados por um lençol de gente, todo ele de boa disposição.
Quero mais, quero melhor, quero mais longe, quero desporto, quero para mim e com os outros.


21 de março de 2009

Jason Mraz - Campo Pequeno


Pode soar a repetição e peço desculpa a quem o sentir mas, é impossivel ficar indiferente a um concerto destes.

Faço este post só para partilhar com vocês esta musica de nome: Mr. Curiosity.

E não é por acaso este nome... é que quando toda a gente dentro do Campo Pequeno já não tinha dúvidas de que estava a assistir a um concerto de um verdadeiro artista, realmente dotado de uma voz excepcional e de uma capacidade de cativar fora do normal, eis que ele nos brinda com mais um grande momento.

Viram-se olhares à procura de onde vinha quem estava a cantar aquilo, ouve expressões de “espectáculo” “fantástico” e ouve quem não conseguisse fazer outra coisa que não ficar de boca aberta.

Quanto a mim, que já conhecia a musica e que ao ouvi-la do CD tinha ficado com a impressão de que era um dueto, fiquei fascinado!

Só não é o melhor concerto visto por mim até hoje porque os Xutos também estiveram muito à frente à uns anos no Tivoli...

20 de março de 2009

Jason Mraz ... ontem



Um dos aspectos mais importantes num concerto, é a capacidade que o artista tem para nos surpreender.
Ontem foi isso que aconteceu com uma presença em palco absolutamente fora do normal, e uma elasticidade vocal que nos deixa de boca aberta! Este senhor chegou mesmo a cantar ópera...
Sim, esse senhor que quase toda a gente pensa que apenas tem uma música capaz, e uma voz regular, não deixou qualquer dúvida a quem lá esteve...
No entanto, não podia deixar de colocar aqui esta música - "I´m Your´s" com um misto muito bem colocado de "Three little birds". Demonstra bem a facilidade com que nos pôs a todos a cantar "em cima do palco".
Vejam o vídeo todo, vale a pena!

17 de março de 2009

Gritos e silêncios




Não sei qual deles corta mais...
Se um silêncio zangado, se uma discussão acesa.

Sono interrompido




Esta coisa de trabalhar de noite e pensar que vamos dormir durante o dia umas horinhas descansados, é muito gira...
Principalmente quando se mora num rés-do-chão e temos uma retro-escavadora em frente à janela do quarto a fazer um buraco digno de receber um qualquer meteorito que por aí decidisse cair!

16 de março de 2009

Viajar no tempo




Foi-me dado recentemente a conhecer uma verdadeira máquina do tempo.
Quem não gostava de voltar aos míticos anos 70, à magia dos anos 80, ou voltar a viver as maluqueiras dos 90?
Basicamente tudo isso é possível, porque a cada memória normalmente é associada uma música, uma música que iremos decerto encontrar nesta máquina impressionante.
Trata-se de um site "www.musicovery.com", que nos permite criar uma rádio com o estilo de música que queremos ouvir no momento, adaptada ao nosso estado de espírito e que percorre as décadas que pretendemos.
Tudo isto é feito apenas com grandes músicas que de algum modo nos marcaram, há apenas dois, dez, 20 ou mesmo 50 anos.
Uma verdadeira preciosidade deste mundo global que é a internet, do qual devemos usar e abusar, com a garantia de que nunca nos iremos fartar!
Àh, é verdade... tudo isto é de borla e de fácil utilização.
Experimentem e depois digam-me se não valeu a pena...

15 de março de 2009

O dia chegará





Às vezes.
Felizmente, só às vezes, chegamos a casa com as pernas pesadas e a cabeça fechada.
Foi mais um dia em que falhámos. Muito, ou apenas o pouco para não ter sido o suficiente.
Falhou o correcto ou o conveniente, porque o ideal simplesmente não estava lá.
Custa aceitar que estes dias continuem a ser colocados num aleatório que ainda não consegui decifrar.
Custa tanto, mas apenas e só até ao momento em que me focalizo no dia de amanhã. Não porque será melhor, não porque o de hoje foi pior, mas simplesmente porque é outro, diferente. Melhor ou pior ele virá, e só por isso não nos podemos dar ao luxo de o perder.
A nossa hora, o nosso momento, a nossa oportunidade, a nossa viragem chegará, só temos que a saber esperar, tal como eu espero pacientemente em cima da prancha pela onda certa, a minha onda.
Há que continuar a acordar com forças renovadas dia-após-dia, a cada tocar de despertador, a cada pequeno-almoço tomado em silêncio e a cada viagem nos transportes carregado de um olhar desfocado.

12 de março de 2009

Apetecimentos II



Ainda se lembram deste anúncio?
Hoje foi claramente um corneto de morango!

11 de março de 2009

Pés bem assentes na terra




Dou a volta na rotunda mais distante que avista a praia de Carcavelos e dirijo-me a um parque de estacionamento contiguo à marginal.
Estaciono.
Música "boa-onda" ainda bem alta no rádio, contrasta com as ondas revoltas que não se cansam de mandar vir com o areal.
11h10m, pego no telemóvel.
A chamar...
Zapporsson (Z) - Estou?!
Cephas (C) - Ahein? Sim?!
(Z) - Então pah, em que praia é que estás?!
(Pausa dois segundos do outro lado da linha)
(C) - Errhh... estou na praia dos sonhos... Desculpa lá, adormeci...
(Z) - Lol, então deixa-te continuar. O mar hoje está muito agressivo.
Corri a linha toda e só Sto Amaro é que tem algumas ondas de jeito, mas está sobrelotada, de resto, mais nada!
(C) - E Carcavelos?
(Z) - Carcavelos está desordenado, nem um único lá anda dentro de água... (Visão estranha esta).

De repente vejo-me com meia manhã livre pela frente e lembro-me que talvez não fosse má ideia lavar o carro.
Lá me aplico numa bomba de gasolina perto de casa e agarro-me ao aspirador.
Leve e despreocupado como sempre nestas ocasiões, calça de ganga sem cinto e de tempos a tempos tão descaída, que decerto deixava ver os calções por baixo delas.
Barba por desfazer e cabelo despenteado, afinal de contas estava para ir apanhar umas ondas... (aí por enquanto, não tenho que prestar contas à boa apresentação).
Aspirador na mão, rabo espetado para cima justamente quando oiço alguém vir na minha direcção...
- Zip... zip... (a minha alcunha no secundário)
- Fogo, quem será que me está a chamar...?
-Olá, estão estás bom?! Ah quanto tempo...
-Errhh... Olá... como estás? ( sim, porque eu sei como estou, estupefacto!)
Há uma série de anos que não a via, mas de algum modo contínua a marcar a diferença. Estava agora diferente. Mais magra, mais acessível, mais simpática até... Se calhar, sou apenas eu que agora estou desbloqueado.
Foi aquela "a rapariga" durante 3 anos a fio, aquela paixão platónica, eu passava horas na sala de aula apenas a vê-la mexer no cabelo, ajeitar-se na cadeira, tirar apontamentos... Ainda me lembro das caretas que ela fazia naquelas aulas de História...
Nunca tive coragem para lhe dizer que reparava.
Lembro-me do dia em que a cumprimentei pela primeira vez com dois beijos na cara, foi no 9º ano, no 1º dia de aulas do 2º período. Eu era apenas mais um miúdo magricelas, tão tacanho que que fiquei atónito perante tal acontecimento, camisa de flanela enfiada dentro das calças e um casaco da "Uniforme" oferecido no Natal...
Agora, ali na bomba de gasolina, basicamente não dissemos nada demais, foi apenas um encontro trivial de velhos amigos como com tantos outros acontece.
Apesar de ela hoje ser uma das mulheres portuguesas mais requisitadas na televisão Nacional, surpreendeu-me com a abertura que teve ao vir ter comigo e com a sua simplicidade numa conversa de circunstância que durou cerca de dois minutos...
Soube bem recordar.

10 de março de 2009

Chegou mesmo a horas...



Épá!
Hoje está um daqueles dias, que tem uma daquelas manhãs, que tem uma daquelas levezas, que tem um daqueles cheiros, que tem uma daquelas cores, que tem um daqueles sabores...

Sabor puro e crú de...
Primavera!

( A música? Porque o dia assim o pede!)

6 de março de 2009

Defensor dos pobres e oprimidos



Que alguém bata com a porta do seu carro, na viatura estacionada ao lado, eu até acho trivial.
Que alguém o faça contra o meu carro que há cerca de cinco meses levou uma pintura nova, já me começo a habituar.
Que alguém bata com a sua porta contra o meu carro, comigo lá dentro e de uma forma arrepiantemente despreocupada, assumo que seja possível mas de um descaramento abismal.
Que alguém faça isso tudo, e perante a minha confrontação directa a única coisa que diz, são uns grunhidos metidos lá para dentro e ainda por cima interrompe o meu monologo para atender o seu telemóvel, é quase inconcebível!
Mas agora, que alguém depois de bater no meu carro, pintado de novo, comigo lá dentro, a única coisa que diz são grunhidos e não é capaz de me olhar nos olhos e pedir desculpa depois de eu o ter desculpado pela sua desatenção, é que eu não consigo engolir!
Não consigo mesmo!
Detesto pessoas que não olham nos olhos numa situação destas! Só lhe pedia que me olhasse nos olhos e pedisse desculpa... mas não...
Olha, deixei-o ir, espero eu que a remoer lá dentro da sua consciência. Sim porque eu vim para casa a remoer mais um risco... uma armadura era o que eu precisava.

5 de março de 2009

O outro lado do mundo




- Ao que parece foi apenas um susto, o coração decidiu começar a bater um pouco depressa demais sem pedir autorização, mas rapidamente se arrependeu - disse a enfermeira, num tom tranquilizante enquanto pensava na sorte que este senhor havia tido.
Por momentos a sala de reanimação ficou vazia, mas um vazio expectante, que fica até ao momento em que por ali entra alguém a precisar mesmo a sério, mas que muitas das vezes não se apercebe da gravidade da sua situação.
Toca o telefone. A enfermeira atende já adivinhar o que se vai seguir, quando do outro lado...
- Estou Rute, é o Miguel, triei agora para ai uma senhora que não me parece muito bem, com uma história suspeita de um mal-estar torácico, acompanhado de dispneia súbita...
- Ok, acho que já estou a ouvir a maca a chegar, até já...
Rapidamente todos se prepararam para a receber, luvas, monitor, oxigénio...

... Do outro lado era assim...

Começo a sentir dificuldade em ficar acordada, diria mais que isso, diria que nem adormecida me consigo manter.
Apercebo-me que saio agora de uma ambulância.
Vou deitada numa maca e levam-me cada vez mais depressa para dentro de uma sala cheia de visores, fios e uma variedade que equipamentos esquisitos, mas ninguém me explica nada.
Eu tento falar mas ninguém me ouve...
Tento agora com todas as minhas forças manter os olhos abertos e perguntar o que se passa, mas nem os lábios se mexem, nem os olhos se abrem mais. Procuro esticar a mão e dizer que está tudo bem, mas também não consigo!
Num repende, juntam-se Enfermeiros, Médicos e Auxiliares à minha volta.
Ligam uma série de fios do meu peito a um dos tais visores, suponho que mostre o bater do meu coração, mas, alguma coisa não está bem.
Custa-me a respirar cada vez mais, tanto que começo a perder a necessidade de o fazer...
"Está em paragem" - oiço o Enfermeiro dizer com uma calma serena.
Parece que imediatamente todos à minha volta encarnam um papel com falas e acções sequenciais.
Neste momento consigo ter uma visão superior de tudo o que se passa à minha volta. Pior que isso, vejo-me a mim despojada de qualquer vontade, deitada naquela maca de hospital, com um rosto amorfo, agora isento de tudo aquilo que viu nestes 52 anos.
Uma das enfermeiras espeta-me uma agulha no braço esquerdo, mas não dói, estranho.
Alguém começa a fazer pressão no meu peito de um modo sequencial, engraçado penso eu, afinal de contas, eu estou aqui em cima e estou bem, não me vêm?! Já me podem levar para casa.
Agora vejo que alguém me estica uma corda, mas eu simplesmente ignoro-a. Porque é que a vou agarrar? Sinto-me bem assim... sem nada sentir.
Lembro agora dos castelos de areia que construía quando tinha 5 anos, sempre carregada de fé utópica que eles iriam resistir à próxima onda de espuma que ali chegasse.
Quero continuar a lembrar, mas eles à minha volta não deixam!
Ignoro o puxar deles, e lembro-me do jantar que dei ontem para a minha filha e a família do meu futuro genro. Foi uma festa autêntica, vi a felicidade nos olhos da minha filha e o sentimento de dever cumprido do meu marido.
Ela vai-se casar para a semana, está tudo pronto e eu não vejo a altura de ver a minha filha subir ao altar com aquele vestido branco pérola.
Agora sim, vamos ter oportunidade de gozar a vida, viajar por aí, sermos chamados de avós e...
Mas espera... estou ansiosa... com uma ansiedade diferente.
Fez-se click, e apercebo-me que tudo isso começa a ser uma imagem fugaz.
Sinto-me a asfixiar, não de ar, mas futuro perdido. Tudo o que planeava vejo fugir e nada posso fazer para mudar.
Mandem-me a corda novamente, eu agarro!
Mandem-me a corda, por favor! Rápido!!!
Então?
Não estou a acreditar nisto, não pode ser! Ajudem-me, não me estão a ouvir?!
Ajudem-me!...
Aaahhhhhhhh!

3 de março de 2009

O salto do trapézio...


Perigo!!!

Sem querer estava a ser novamente apanhado na armadilha e não podia.

Como pôde estar desatento o suficiente para baixar a defesa que anos antes tinha custado tanto a levantar.

Será que era um pesadelo ou estava mesmo a acontecer de novo?

A angústia perseguia-o e o nó no peito fazia-o lembrar imagens passadas. Imagens de ilusão que levaram ao desespero.

Porque é que tinha de ser assim?

Ele não queria... ou queria?

A confusão apoderara-se dele!

Ele que era ponderado e de decisões seguras, via-se agora num trapézio sem rede onde o público o incitava a saltar e ele sabia que se saltasse cairia...

Estaria do outro lado alguém com a força necessária para o puxar, segurar a sua mão e o salvar?

Ao fundo ouviu uma voz que dizia, “vai até ao fim!”

...

Ainda não sabia onde estava...

Esfregou os olhos e soltou um bocejo!

De repente deu-se conta de quem era e onde estava.

Estava na cama e tinha voltado a sonhar.

Perigo!!!