
Dou a volta na rotunda mais distante que avista a praia de Carcavelos e dirijo-me a um parque de estacionamento contiguo à marginal.
Estaciono.
Música "boa-onda" ainda bem alta no rádio, contrasta com as ondas revoltas que não se cansam de mandar vir com o areal.
11h10m, pego no telemóvel.
A chamar...
Zapporsson (Z) - Estou?!
Cephas (C) - Ahein? Sim?!
(Z) - Então pah, em que praia é que estás?!
(Pausa dois segundos do outro lado da linha)
(C) - Errhh... estou na praia dos sonhos... Desculpa lá, adormeci...
(Z) - Lol, então deixa-te continuar. O mar hoje está muito agressivo.
Corri a linha toda e só Sto Amaro é que tem algumas ondas de jeito, mas está sobrelotada, de resto, mais nada!
(C) - E Carcavelos?
(Z) - Carcavelos está desordenado, nem um único lá anda dentro de água...
(Visão estranha esta).
De repente vejo-me com meia manhã livre pela frente e lembro-me que talvez não fosse má ideia lavar o carro.
Lá me aplico numa bomba de gasolina perto de casa e agarro-me ao aspirador.
Leve e despreocupado como sempre nestas ocasiões, calça de ganga sem cinto e de tempos a tempos tão descaída, que decerto deixava ver os calções por baixo delas.
Barba por desfazer e cabelo despenteado, afinal de contas estava para ir apanhar umas ondas... (aí por enquanto, não tenho que prestar contas à boa apresentação).
Aspirador na mão, rabo espetado para cima justamente quando oiço alguém vir na minha direcção...
- Zip... zip... (a minha alcunha no secundário)
- Fogo, quem será que me está a chamar...?
-Olá, estão estás bom?! Ah quanto tempo...
-Errhh... Olá... como estás? ( sim, porque eu sei como estou, estupefacto!)
Há uma série de anos que não a via, mas de algum modo contínua a marcar a diferença. Estava agora diferente. Mais magra, mais acessível, mais simpática até... Se calhar, sou apenas eu que agora estou desbloqueado.
Foi aquela "a rapariga" durante 3 anos a fio, aquela paixão platónica, eu passava horas na sala de aula apenas a vê-la mexer no cabelo, ajeitar-se na cadeira, tirar apontamentos... Ainda me lembro das caretas que ela fazia naquelas aulas de História...
Nunca tive coragem para lhe dizer que reparava.
Lembro-me do dia em que a cumprimentei pela primeira vez com dois beijos na cara, foi no 9º ano, no 1º dia de aulas do 2º período. Eu era apenas mais um miúdo magricelas, tão tacanho que que fiquei atónito perante tal acontecimento, camisa de flanela enfiada dentro das calças e um casaco da "Uniforme" oferecido no Natal...
Agora, ali na bomba de gasolina, basicamente não dissemos nada demais, foi apenas um encontro trivial de velhos amigos como com tantos outros acontece.
Apesar de ela hoje ser uma das mulheres portuguesas mais requisitadas na televisão Nacional, surpreendeu-me com a abertura que teve ao vir ter comigo e com a sua simplicidade numa conversa de circunstância que durou cerca de dois minutos...
Soube bem recordar.