Mostrar mensagens com a etiqueta Pequenos contos. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Pequenos contos. Mostrar todas as mensagens

28 de novembro de 2010

Os velhinhos All Star



Os dias já apertavam de frio!
Ele pouco importado com isso, apenas vestia um blusão de ganga, uma T-xirt preta e umas calças de ganga, desfiadas, bem junto onde calcavam os seus ténis sujos All Star, já bem "comidos" de lado.
Certificou-se de que aquela era a rua certa. O terceiro prédio...
O quarto dela tinha a luz acesa, lá bem acima, isolada de tudo, aparentemente.
Ele, sentiu um desconforto algures entre o estômago e o esterno...
Abeirou-se da porta, olhou para o painel das múltiplas campainhas e carregou, primeiro a medo, ao de leve. 7º E. Ninguém respondeu.
Inspirou fundo, carregou mais duas vezes, agora toques decididos, com personalidade. Ninguém respondeu.
Deu quatro passos atrás, olhou novamente para cima, e a luz continuava acesa. Dava para perceber que uma sombra inquieta se agitava para trás e para a frente, mas a porta continuava fechada.
Já sem esperança, tocou novamente, já descrente e a desejar que ninguém respondesse...
Deu novamente quatro passas atrás, encostou-se por instantes a um carro estacionado, enquanto se recompunha, e virou costas.
De olhos cravados no chão, apercebeu-se que os anos já tinham passado. Já não era o mesmo. Nem ele nem ninguém.
A calçada do passeio estava agora mais suja, não eram os sapatos de verniz dos que hoje por ali passavam, que lhe iriam puxar o lustro.
Nem à calçada nem a ele.
Já estava cansado. Longe iam os tempos em que os cansados eram apenas uns... os velhos ténis All Star.
Os velhos All Star que, em tempos, àquelas pedras, tanto brilho deram...




13 de maio de 2010

Fim da linha? 6 de 6


Tinha saído atrasada tal como para tudo nas últimas semanas.
Quando chegou à oficina esta já estava fechada para almoço, viu a hora de reabertura e decidiu ir-se mimar um pouco até um restaurante à beira rio.
Tudo parecia calmo e sereno ali.
Ela era apenas mais uma a desfrutar de mais um dia de Sol quente.
Assim, debaixo daquela aura de tranquilidade, sentia que nada a podia perturbar.
Entretinha-se a ver as pessoas passar, umas de bicicleta outras de patins, uns miúdos a brincar com um skate e um casal a passear.
Quando finalmente se decidiu a levantar já há muito que tinha passado a hora de reabertura da oficina pelo que foi só chegar e deixar o carro.
Foi a pé à casa dele.
Ao tocar à campainha sentiu um inexplicável aperto no peito.
Foi uma sensação esquisita mas que rapidamente desapareceu.
Passadas várias tentativas para que ele lhe abrisse a porta sem sucesso, a vizinha apareceu à janela a dizer que ele tinha saído.
Decidiu não esperar e ir embora.
Naquela noite, ao ver o telejornal enquanto jantava, o garfo caiu-lhe.
Não havia dúvidas era ele no filme feito de um helicóptero.
Era ele que aparecia a cair.
Tal como o garfo o seu mundo desabou.
Agora já era tarde…

11 de maio de 2010

Fim da linha? 5 de 6


Quando recebeu o telefonema que a chamava para uma tentativa de suicídio na ponte, ela não queria acreditar.
Estava tudo a correr tão bem…
Mas era o seu trabalho e até estava confiante.
Quando chegou ao local o homem que viu parecia um fantasma.
Parecia não dormir há pelo menos uma semana, era magro que doía e transpirava uma aura negra à sua volta.
O que mais a inquietou foi que mesmo com este aspecto o homem lhe pareceu não só familiar como também teve a certeza que era boa pessoa.
Mas porque é que se queria suicidar?
A primeira frase dele foi: “Pelo menos vou morrer a olhar para uma cara bonita!” e saiu do seu rosto o que podia ser um sorriso não fosse o seu mau estado.
Ao fim de 10 minutos de conversa, se é que se pode chamar conversa a um quase monologo da parte dela, parecia o conhecia há anos e estava a gostar cada vez mais dele.
Isto não podia estar a acontecer, principalmente porque “este” parecia estar mesmo decidido.
Ao fim de uma hora e cinquenta e sete minutos, quando menos esperava ele disse: “Gostei de te conhecer… poderíamos ter sido bons amigos. Adeus!”
E atirou-se de costas sempre a olhar para ela.
Nessa noite ela adormeceu com aquela cara…

9 de maio de 2010

Fim da linha? 4 de 6


Parecia que aquela aura negra não o largava.
O aperto no peito era mais intenso a cada momento que passava.
Ela estava cada vez mais longe e era isso que ele não suportava.
Estava cansado, sem apetite, sem forças.
Decidiu sair!
Quando ligou o motor não sabia para onde ir.
Até o tempo gozava com ele.
Aquele Sol abrasador…
Aquelas pessoas cheias de alegria e vida.
Aquele mundo não era para ele.
Quando parou o carro e foi até à beira da ponte pareceu tudo natural.
Era como se já soubesse o que ia fazer à muito, como se aquilo fosse inevitável, como se já estivesse escrito no livro da sua vida.
Alguém o chamou.
Parecia um anjo. Loira. Bonita. Alegre.
Transmitia tranquilidade e paz.
- Pelo menos vou morrer a olhar para uma cara bonita! – deixou sair e tentou sorrir.
Ela falava e a sua voz parecia uma melodia encantadora.
Quando finalmente despertou daquele estado de embriagues, sentiu que aquela mulher, vinda não sabia bem de onde, o podia ter salvo se tivesse chegado mais cedo.
Bem mais cedo!
- Gostei de te conhecer… poderíamos ter sido bons amigos. Adeus!
E deixou-se cair a olhar para aquela cara encantadora…

7 de maio de 2010

Fim da linha? 3 de 6


Vamos chama-la de Kerl!
Já tinha acordado mas deixara-se ficar na cama a ver mais um dia de Sol lá fora.
Sentia-se estranha, mas bem.
Ultimamente não tinha vontade de nada, queria apenas perguiçar.
A sua vida estava inundada de complicações mas ela não estava sequer importada com isso. Pura e simplesmente não estava para se chatear a resolver tanto problema.
Sempre fora preguiçosa e há muito passara a viver um dia de cada vez.
Agora que se lembrava, devia aproveitar a folga para ir tratar do carro e já que ia estar na rua talvez passasse finalmente na casa “dele”.
Não era coisa urgente, sabia que estava à sua espera e quando fosse lá seria como da primeira vez, ele esqueceria tudo só de olhar para ela.
Isso deu-lhe uma satisfação interior que lhe fez brotar um sorriso dos lábios.
Finalmente levantou-se e foi para o chuveiro.

5 de maio de 2010

Fim da linha? 2 de 6

Vamos chama-lo de Eagler!
Do outro lado da cidade ele tinha acabado de se levantar.
Há mais de uma semana que não saia de casa, não comia e não via a luz do Sol e tinha dificuldade em dormir mais de 30 minutos seguidos.
Tinha arrancado o telefone da ficha para não ter contacto com ninguém e já nem sequer ouvia os constantes toques na campainha.
Pouco se importava se era o carteiro, o vizinho ou o colega de trabalho. Quem ele queria que fosse não era certamente.
Há muito que tinha deixado de acreditar que esse contacto fosse possível, embora ainda se tivesse enganado durante uns tempos na esperança que, algum dia por milagre, este contacto acontecesse.
O que sentia não conseguia descrever.
Sabia que não estava a aguentar.
Sabia que tinha um nó de sentimentos no peito que teimava em não se mexer dali.

3 de maio de 2010

Fim da linha? 1 de 6


Vamos chama-la de Naraida!
Era mais um dia de trabalho mas ela sentia-se bem.
Andava bem com a vida e feliz.
De manhã depois de terem deixado o filho na escola, despediu-se do marido e como sempre este tinha-a brindado com “aquele abraço” e “aquele beijo”.
Não sabia porquê mas sentia-se tranquila e em paz.
Talvez fossem os 30º lá fora, ou simplesmente o nível aumentado de serotonina que o Sol tinha feito libertar nos últimos dias.
Cumprimentara todos com o seu leve e contagiante sorriso, uns bons dias carregados de quietude e sentara-se na sua secretaria a despachar uns relatórios, que tinha deixado por acabar no dia anterior.
Hoje era daqueles dias que se tivesse de apostar: nada a ia incomodar!

24 de dezembro de 2009

Conto de Natal - Parte II

Ver Conto de Natal - Parte I

Arrancou sempre com mudança a fundo, até à casa dela. Assim que chegou, parou o carro atravessado na estrada e nem sequer o desligou. As luzes ficaram ligadas enquanto iluminavam dois carreiros de gotas que se perfilavam à sua frente.
Chovia cada vez mais forte, mas mesmo assim o seu grito por ela, ouviu-se lá na cozinha onde ela estava.
Ela, que já há três anos sozinha, resolveu convidar a vizinha do andar de cima. Também vivia sozinha e juntas tinham combinado fazer o natal acompanhado.
No meio da farinha e dos óleos ao fogão, a mais sábia lá foi partilhando uma ponta do mundo que tinha vivido.
Tinha saído de casa por volta dos 16 anos e cedo começara a trabalhar nas vindimas, na apanha das batatas, do tomate, da azeitona... de tudo o que a terra tinha para dar. Costumava dizer que o chão tinha sempre trabalho para dar a quem o quisesse agarrar e foi por isso que chegou aos 87 anos sem saber ler nem escrever, mas com uma casa própria e três campos nas redondezas da sua aldeia que lhe tinham calhado em partilhas.
Já lá não ia há anos, ao norte, mas o facto de ali estar a contar tudo aquilo por que tinha passado, fez com que este Natal deixasse de ser em Lisboa.
Estavam as duas de avental posto, a senhora e a miúda, quando se apercebem que alguém lá fora chama por uma delas.
A mais nova limpou à pressa as mãos, enquanto a mais velha foi à janela e espreitou pelas brechas dos estores. Conseguia ver a espaços um rapaz por entre os dois rasgos de luzes dos faróis . Só pode ser maluco - pensou ela
- É o Carlos?
- Sei lá se é o Carlos. Só sei que não deve estar lá muito bom do juízo.
- Sim, é ele!

Aquela resposta não deixou qualquer dúvida à convidada. Depois de tanta coisa que já tinha vivido, ouvi-la dizer que seria ele, disse logo que ele era para ela.
Em sobressalto atirou o avental para o canto da sala, abriu a porta, deu mais um passo e ali ficou, qualquer coisa como 5 segundos que aos olhos dela, mais parecia uma eternidade.
A velhota continuava a espreitar por detrás dos estores com a luz acesa e viu os dois abraçarem-se. Apenas isso. Como ela o fez em 1938 com o único homem que tinha "conhecido".
Ali à chuva, aqueles dois não fizeram mais nada, nem nada disseram.
Agora resolvidos, ele entrou no carro e ela voltou para dentro.
A Sr.ª guardou para si mesma que, um dia aquela miúda seria também uma senhora e aquele miúdo, para sempre o seu senhor.

23 de dezembro de 2009

Conto de Natal - Parte I



Era a véspera de Natal.
Ele saiu de casa, sozinho, no fundo, era assim que estava.
Saiu à procura de novos rumos, inspirações, decisões ou apenas de um pequeno momento de nostalgia.
Estava a chover miudinho e sentia-se uma brisa quente tendo em conta os dias que se tinham antecedido.
Começou a ficar um pouco incomodado com a procura prolongada das chaves do carro. Ainda agora as tinha guardado... Bolso esquerdo, direito. Calças...
Encontrou!
Entrou rapidamente para dentro do carro, esfregou as mãos repetidas vezes na esperança de aquecer um pouco mais e virou a chave na ignição. Deixou aquecer um pouco o motor e ligou o rádio. Não quis o cd que lá tinha, experimentou a espontaneamente de uma rádio local.
Daí até ao momento em que estacionou não recorda nada. Fez talvez uns 5 km como se estivesse em piloto automático, com o olhar vidrado para a frente, sem tomar a mínima atenção na estrada, nem tão pouco nos raros peões que se aventuravam nos estreitos passeios que conduziam até a zona de Belém.
Estranha essa sensação, de se chegar a um local, sem saber como. Parou assim que encontrou um lugar, mas manteve por momentos o para-brisas ligado.
As imagens distorcidas através do vidro sempre lhe fizeram confusão.
Desligou o carro e rapidamente um vulto se aproximou do lado de fora, com um rolo de jornal amassado debaixo do braço e um boné esbranquiçado meio sujo e ensopado a fingir de guarda-chuva. O outro, fez-lhe de fora uma sinalética qualquer, mas ele preguiçosamente ignorou.
Puxou o fecho do casaco até bem acima e já sem ninguém no horizonte, saiu do carro a custo. A chuva agora amassava qualquer um que de mais maluco tivesse o pensamento e só essa o empurrou aos soluços até ao lado aposto da estrada.
Entrou desconfortável, tinha os ombros, as coxas e as pontas dos ténis de verão completamente molhados por aqueles quinze metros de rio que caia do céu.
Rapidamente sentiu o quente do interior e o ambiente acolhedor. Tinha entrado no café . Tinha as paredes forradas a madeira, vítima de uma clara reconstrução bem sucedida. A decoração era simplista, mesas pequenas redondas, também em madeira, o suficiente para duas ou três pessoas se ouvirem sem necessitarem mais do que um pequeno sussurro.
Fez o seu pedido e cambaleou até ao andar de cima.
Após um olhar de 360º, escolheu uma mesa junto à janela. Lá fora continuava a chover e ele entreteve-se por momentos a seguir o trajecto aleatório dos pingos janela abaixo.
Aos poucos apercebeu-se da música de fundo e ficou um pouco constrangido com o poder que ela tinha no moldar daquele ambiente.
Olhou de novo em volta e fixou-se nas poucas pessoas que o rodeavam. Nos sorrisos a dois, nas cumplicidades, nos aconchegos, nas confissões, nas conversas, nos mexer de copos e nos toques debaixo da mesa.
Divagou para o ranger do chão de madeira e fixou-se no resto do café que ficou no fundo da chávena. Rodou-o par a direita, depois para a esquerda, desfocou o olhar e procurou encontrar o que lhe faltava naquela sala.
Foi ao bolso direito e procurou impacientemente por uma sms, uma chamada não atendida, um ameaço de chamada... mas nada. Ecrã livre, caixa de mensagens vazia e a rede no máximo.
Ainda pensou em ligar-lhe, chegou mesmo a pôr a chamar, mas tão depressa se apercebeu que apenas isso não chegava, que enxotou a cadeira para trás e saiu disparado escadas abaixo até ao carro.

7 de dezembro de 2009

Liberdades individuais




Fechado em casa e embrenhado no cinzento que cobria momentaneamente o sol das duas da tarde, ele agarrou na guitarra.
Instintivamente começou a tocar algo que corroesse e abrisse ainda mais a sua ferida.
Tocou, tocou, tocou para si e para mais ninguém.
Tocou até não sentir mais as cabeças dos dedos da mão esquerda que hoje e só por hoje, se tinha vestido a rigor da ocasião.

...

O sol começou a espreitar e com ele se foi a apatia alimentada aos acordes daquela música triste.
Pousou a guitarra em cima da cama ainda desfeita, levantou os estores e abriu a janela.
Lá do cimo do 5º andar, respirou aquele ar amornado pelo sol de início de tarde, enquanto olhava a sua mota lá em baixo.
Vestiu um par velho de calças de ganga, uma t-xirt branca e o seu blusão de cabedal deixando-o aberto.
Agarrou nos seus óculos de sol, no capacete preto que há semanas guardava o pó debaixo da cama e nas chaves de casa.
Desceu as escadas a correr, amparando todos os desequilíbrios com encontrões contra as paredes, até que por fim chegou ao rés do chão e abriu a porta para a rua.
Em câmara lenta, foi andando até ela.
Guardou as chaves no seu bolso direito, olhou os prédios em redor, colocou cuidadosamente o capacete e os óculos escuros e sentou-se em cima da mota.
O céu abriu definitivamente, como há muito não o via.
Não viu mais nada, ligou a mota, em ponto morto acelerou duas vezes e nunca mais ninguém o viu.


6 de dezembro de 2009

Estranho II

Ver Insónias



Estranho como os anos passaram...
Estranho mesmo as coisas a que eu recorro, apenas para disfarçar a tua ausência.
Tu continuas a não responder, atender, devolver... E a casa continua assombrada pela tua não presença.
Dias, que aos poucos foram sendo encostados pelas semanas.
Meses, que sem piedade continuas a ignorar.
E anos, que automaticamente se agarraram a alguns desses meses, meses que teimas em prolongar.
Difícil seria admitir que o ruído da televisão o é, apenas porque ela de noite continua ligada... Numa infundada esperança de preencher um pouco do silêncio, que um dia cá em casa deixas-te esquecido.
Difícil seria admitir que os ruídos da cozinha, não eram mais do que saudades dos teus frenéticos e impiedosos ataques a meio da noite ao nosso frigorífico... Difícil.
Difícil será admitir que pela primeira vez, monto este presépio sem os teus detalhes e preciosismos, que constantemente atropelavam o meu mais puro atabalhoar.
Tenho saudades desses difíceis...
Ligaste-me agora.
Tu não falas-te, mas eu sei que foste tu!
Ouvia lá ao fundo o batuque de um cego, que decerto percorria o longo corredor da carruagem do metro em que tu te encontravas.
Sei que eras tu, porque sim!
Sei, porque depois destes anos todos, ainda me lembro de quando respiravas assim!

22 de setembro de 2009

Decisões - Parte II

Ver parte I

Três meses antes...



Corre o mês Agosto. 40 graus à sombra.
Ele senta-se na esplanada com vista para a praia, ali bem no meio de toda a gente. Como de costume... todos os anos, da mesma maneira e no mesmo lugar.
Calções curtos, t-xirt manga cava, chinelo gasto, cabelo moldado pelo repouso de uma sesta fortuita e cara descansada de preocupações.
Põe a mão ao bolso e com o que encontra, cinco ou seis moedas pretas, manda vir algo que lhe permita gozar este momento, só seu.
Debaixo do chapéu de sol, rende-se. Escondido no meio das conversas de tantos outros, vai sofrendo as consequências de um vento quente amolecedor, que o empurra para a tentativa frustrada de se refrescar com o que ainda vai restando de uma bebida perdida entre três cubos de gelo.
Agita freneticamente o copo na esperança de multiplicar aquele resto de líquido, como quem ignora inocentemente o mundo à sua volta. Sem pensar que alguém o pode olhar, que vale a pena olhar ou mesmo ser olhado.
Por pouco tempo.
Lá ao fundo, surge alguém que vê de perfil. Um perfil dissipado e enevoado pelas ondas que o calor liberta num inicio de tarde como este.
Corpo franzino, andar descontraído e olhar preenchido. Preenchido não por alguém, mas sim por uma certeza sobre si, só podia...
Ela reparou que ele a olhava. Em jeito de provocação, não mais o espreitou mas fez por passar por ele a contar lentamente os passos que dava enquanto deixava para trás um rasto a protector que ele foi incapaz de ignorar.
E foi assim que ele, duma maneira leve demais para ser credível, foi arrancado contra vontade de um estado de apatia e letargia em que se tinha deixado cair...

Outra vez não, não pode... pensava ele

8 de abril de 2009

Insónias




Dou duas voltas na cama.
Puxo os cobertores que agora ficam descaídos.
Dobro as pernas, um pouco depois estico-as ... coço as costas por uma comichão passageira.
Mais uma volta, e ajeito a almofada.
Não consigo dormir, e aquela ideia... aquela ideia simplesmente não me sai da cabeça.
Levanto-me e vou descalço até à cozinha, enquanto me concentro no som dos meus calcanhares aos balanços cravados contra o chão.
Abro o frigorífico, e não vejo nada de jeito para me satisfazer esta ânsia.
Pego num pacote de leite aberto e meto à boca três golfadas que me gelam a garganta e a cabeça.
Arrasto a janela lentamente enquanto ganho coragem para me debruçar sobre ela.
Não se ouve ninguém, as luzes dos passeios lá em baixo continuam acesas, e a espaços vejo uma luz nos prédios em frente ao meu.
Ao longe um cão a uivar, e eu deste lado, respondia baixinho mas apenas dentro da minha cabeça ao latido dele.
Às vezes temos que saber como cortar, e limpar a cabeça por meia hora que seja.
Pensar de luz apagada, e ouvir baixinho uma música que ao longe nos vai lancetando o pensamento.
A cabeça começa lentamente a cair, e as ideias a bater bem lá no fundo, como pratos que estilhaçam no chão e nos cortam lentamente qualquer ideia mais eufórica que possa aparecer.
Embora seja por pouco tempo, não quero saber de alegrias ou de felicidades, entendimentos ou desculpas.
Não ouvir ninguém, atentar apenas à voz derrotista que nos teima em afogar hoje, mas que como sempre acontece, acabará por ser tornar a principal responsável por nos ensinar a nadar.
Hoje quero ficar chateado, sisudo, mais que isso até, quero ficar pensativo!

10 de outubro de 2008

Paris para sempre - Parte II



Play!...

Ao lado do banco deles, um homem com os seus 60 anos consumia um rádio a pilhas que agora cantava "Je t´aime... moi non plus".
A força com que apertava o rádio, denunciava claramente uma história em tudo parecida com a daqueles dois, seguramente naquele banco ao lado, algures em 1968. A música seria decerto a de eleição, quem sabe a maior responsável por tudo aquilo que esse homem desconhecido e a sua memória viveram.
Hoje era a vez destes dois. Sentados num banco junto à margem do rio que reflectia nas suas pequenas ondulações as luzes da Torre Eiffel.
Ele virou-se de frente para ela, aproximou-se e fechou os olhos.
Sentiu as unhas dela deslizar nas suas costas, lentamente, tão mais lentas que aquele momento, que aquela noite, que aquele vento quente que teimava entranhar-se por entre as caras de ambos.
Tão mais lentas que ali ficaram enquanto se esquecerem deles e não se lembraram
dos outros...
- "ma maison est là...", disse ela, na esperança de não parecer muito directa.
- "où?"
Ela segura de si como ele nunca vira ninguém, puxou-lhe a mão e levou-o até à sua mota. Prometeu-lhe uma vista de Paris como ele nunca mais iria ter e assim o cumpriu. À chegada aos Champs Elysées, encostou à berma e passou-lhe a mota para as mãos, queria agora ser conduzida.
Eles subiram a avenida até ao Arc de Triomphe e ele amante da velocidade como sempre foi, acelerou até mais não puder, apenas para puder sentir os seios dela encostados a si.
Os braços dela apertavam cada vez com mais força, aquele que seria o único a fazê-la despojar de qualquer vontade para além de um simples agarrar de cintura, que ela disfarçadamente aproveitava para sentir o tronco definido.
Subiram os quatro andares por umas escadas de madeira bem estreitas, que iam chiando ao som dos pés e dos encontrões.
Ela empurrou-o contra a porta, fechando-a duma só vez. Virou-lhe costas e foi até à janela.
Abriu-a, deixando apenas entre eles e a rua, os cortinados que ondulavam ao som daquela noite quente em Paris.
De costas para ele, tirou o vestido e imaginou-o sem roupa.
Queria sentir-lhe o peito, e ser dominada pelas mãos dele.
A ele secou-lhe a garganta e a fala. Apenas queria ouvir.
Queria ouvir dela a respiração ofegante.
"- Tu vas e tu viens..."
E ouviu. Ouviu algo que nunca mais saberá contar, apenas sentir, e se o quiser voltar a sentir sabe que será apenas com ela.
Já com o sol a bater na cama, iluminando aqueles cabelos desordenados e aqueles corpos que nunca haviam sido de alguém... Elle a dit:
- Je t´aime...

Ele apertou-a mais que nunca, e assim ficaram até de novo adormecer, aquecidos pelo sol de uma manhã quente,

Aqueles corpos que nunca mais serão de mais alguém.




6 de outubro de 2008

Paris para sempre - Parte I


Ele um turista, agora pela primeira vez em Paris, tão dono de si, que só isso bastava.
Ela uma independente, mas perdida no olhar, duma maneira que ele nunca perceberia e que atribuiu ao facto de ser Francesa. Trazia consigo uns olhos rasgados, mas tão rasgados que ao primeiro olhar o mandaram abaixo.
Conheceu-a na Voie de Georges Pompidou quando lhe pediu num Francês arranhado, para tirar uma fotografia com a Torre Eiffel atrás.
"- Vous avez à sourire", dizia ela, perante o olhar atónito dele.
"- Oui, oui, pardon". Sabia que tinha ficado com uma cara um pouco estranha, mas isso pouco importava.
Não foi preciso muito para que aquele sotaque, de uma língua que ele nem sempre entendia, o tenha agarrado por completo. Ele de tudo fez para a agarrar também, e parecia que o tinha conseguido, quando ouviu da boca dela:
"- J'espère pour vous aux dix heures et demie...".
Ele não entendeu tudo. Entendeu o que lhe interessava e o que lhe interessava eram as palavras "esperar" e as "dez horas e meia".
Combinaram novo encontro junto ao Senna, pouco depois, tão pouco que ela mal teve tempo de ir a casa disfarçar o entusiasmo.
Morava sozinha desde os 16, dizia que queria ser pintora. Tinha agora 23 anos e um 4º andar com águas furtadas, na Avenue d´Eylau com vista para a imponente Torre Eiffel e para o local onde eles se tinham visto pela primeira vez.
Ele cedo se preparou. Estava alojado numa estalagem barata com espaço para uma cama feita com lençóis que aparentavam estar lavados, e uma janela que quando aberta fazia as vezes de uma varanda. A casa de banho era comum a todos os hospedes daquele andar e ele cedo se apoderou dela tomando um rápido banho quente, na esperança que isso apressa-se o relógio.
Devagar, muito devagar chegou a noite.
Entre a conversa em Francês, Português e Inglês que parecia não ter fim, ele deu-lhe a mão...

28 de agosto de 2008

Decisões - Parte I


Ela, após o banho pôs a tocar Madonna.
" La Isla bonita", uma das músicas preferidas, era o segredo para se aquecer em dias frios como o de hoje.
Estava enroscada completamente sobre si, num sofá gasto, cabeça pendente à procura de apoio, e ambas as mãos resguardadas no meio das suas pernas. Já tinha adormecido.
A fogueira já começava a perder a força, mas ainda deixava adivinhar a harmonia no rosto dela, que lá se ia revelando por entre um jogo de sombras e um cabelo ainda húmido, solto, como ele nunca tinha visto.
Ela tinha vestido o seu pijama de flanela preferido e já bem cansado. Longo e comprido nas mangas, o tanto que baste para cobrir aquelas mãos frágeis em noites como esta.
A parte de cima que graças ao vício dela de morder, ou entreter de boca, apresentava agora a gola bem larga, do tanto que foi sofrendo ao longos de vários anos e que hoje, desse modo, deixava a descoberto parte do seu peito cheio, agora levemente arrepiado por uma brisa que escapava pelas frechas dos estores.
Ele aproximou-se dela para a beijar, hesitou ao ouvir a sua respiração cadente, até que encostou cirurgicamente os seus lábios nos lábios dela, tão inertes quanto enrugados.
Afastou-se, e sentou-se na varanda do quarto com vista para um vazio de sons nocturnos.
Pensava no que lhe haveria de dizer amanhã quando ela acordasse, se lho iria dizer, ou se simplesmente o iria omitir para sempre.