Já não sabia se a queria ver.
Foi até à casa dela, abriu o portão, caminhou por entre um relvado alto e desleixado, até que se abeirou da porta.
Olhou para trás, na esperança de algo ou alguém que o fizesse voltar no que estaria prestes a fazer, mas nada. Só lá estava a estrada deserta, o seu carro e um candeeiro tombado, ainda aceso num amarelo torrado quase colado ao chão.
...
Bateu à porta e ela pouco depois abriu. Vinha numa camisa de dormir, larga e gasta, provavelmente porque essa seria a sua preferida.
Ele em silêncio, foi de encontro à ombreira da porta. Ela chegou-se enrolou com ambas as mãos a T-xirt dele, e já do alto dos seus bicos de pés, abeirou-se da cara com barba de três dias.
Ficaram assim alguns segundos.
Ele, inspirado na expiração dela, deixou-se estar, inerte a todo o que saía fora de si.
♂ - E se nos sai mal?
♀ -
Fazemos tudo de novo...
♂ - Mas, e se nos sai mal?
♀ -
Não sei que te diga...
♂ - ...
♀ -
Pessoa certa na altura errada, já sei... Sabes, pensava que isso não ia acontecer!... Não contigo, não desta maneira...
Ele anuiu e voltou costas a tudo aquilo e não olhou de volta.
Entrou dentro do carro já de estômago a queimar e acelerou, acelerou tanto que deixou de ver cada ponto branco que vinha contra si.
Era apenas mais uma curva.
Já fora da estrada, recuperou para uma visão centrifugada, o carro saltou o rail de protecção, embateu violentamente contra uma árvore e capotou insistentemente encosta abaixo enquanto ele impotente, sentia os vidros estilhaçados entranharem-se aleatoriamente na carne derrotada.
Bastaram apenas três segundos, para que encontrasse lá em baixo o rio que hoje, seguia serenamente o seu curso .
O nível da água começou a subir às golfadas e com ele a sensação de pânico cresceu exponencialmente.
Absorvido na aflição, queria respirar, mas simplesmente não dava. Fez um esforço final, esticou o pescoço na esperança de conseguir um último fôlego, elevou os lábios quanto pôde e susteve a respiração.
Tentou atabalhoadamente libertar-se do cinto de segurança, mas os braços e as pernas aos poucos deixaram de obedecer. A água era muita e o corpo já respondia atabalhoadamente com movimentos involuntários.
Foi aí que se apercebeu que tudo estaria perdido. Lembrou-se de cada noite, do sabor de cada encosto, cada gemido, cada olhar, cada toque e cada suspiro... Esses nunca ninguém lhos iria conseguir tirar! Ali sozinho, voltou a viver tudo como se da primeira vez se tratasse. Eram os seus momentos, recordados numa orgásmica fracção vulcânica que se evaporou no instante seguinte.
Sentiu a plenitude que a recordação permitia viver, até que por fim, um último espasmo de dor e libertação, lhe percorreu todo o corpo...
Imobilizou-se, já com os braços ao sabor da corrente forte que atravessava o fundo do rio.
Tinha deixado uns olhos tristes mas bem abertos, numa esperança infundada de a ver uma última vez e lhe dizer que era todo dela.
♀ - Não me deixes só... nunca mais!
Fizeram...