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7 de outubro de 2010

Início dos anos 80



Lembro-me dos poucos carros na estrada, e que os poucos que haviam, cada um tinha a sua capa com a matricula na parte de fora.
Lembro-me do Bairro Chinês, do Ford Escort do meu pai num verde apagado.
Lembro-me da casa do meu tio em barraca, do chafariz ao largo da porta dele e do misto de lama e musgo que se mantinha anos a fio no local.
Lembro-me da calçada preta e bem polida, dos cafés "atascados" para onde o meu pai me levava atrás, do cheiro a "pipis" e de um Benfica supremo.
Lembro-me das tardes de domingo e dos jogos do Oriental.
Lembro-me das sandálias abertas de plástico transparente e do cheiro que deixavam nos pés.
Lembro-me dos Verões a sério, das praias até às 20h00, dos grelhados na rua, da despreocupação global e de como o tempo era esticado.
Lembro-me dos Outonos laranjas e dos botins no Inverno.
Lembro-me do sabor da canja de galinha que a minha mãe fazia quando estava doente e das pastilhas gorila.
Lembro-me dos trabalhos de casa e das réguadas que me ensinaram a tabuada.
Lembro-me das barras do lenço, do jogo das escondidas até às 22h e de namorar só porque andava de mãos dadas.
Lembro-me das sardinhas com arroz de tomate.
E claro, lembro-me do fado, lembro-me do fado da Amália.

22 de setembro de 2010

Sessão da noite

Ontem fiz algo que não fazia há anos.
Cheguei a casa, sentei-me no sofá e liguei a televisão na RTP 1.

Vi um filme do início ao fim, como nos velhos tempos, nos tempos em que davam bons filmes, nos tempos em que me aguentava a vê-los, nos tempos em que as noites no sofá da sala eram proibidas para lá das 23h, nos tempos em que me esgueirava sorrateiramente da cama até à sala, nos tempos em que não haviam responsabilidades...

E este início? Adorava este início! Sempre que oiço esta abertura... Pavlov, claramente efeito Pavlov!


7 de fevereiro de 2010

ER



Desde que tenho esse grande serviço da MEO que gravo todos os episódios.
Lembro-me de quando era miúdo e acompanhava a série na RTP...
E a música do final?! Realmente não dá para esquecer!
Depois de 15 anos, chegou o final desta grande série de TV. Vai deixar saudades!

21 de julho de 2009

Sotaques


04h37

O quarto encontrava-se numa escuridão penetrante. Era assim que ele o tinha deixado há três horas atrás quando apagou a luz na esperança de adormecer.
Na rua corria teimosamente um vento gelado que tocava uma chuva amassadora.
Ali estava ele, debaixo de vários cobertores e dos mesmos lençois de flanela vincados de tanta volta. Ali estava aquele corpo, frio, quase quebradiço de tão gelado, até que o telefone toca secamente...

"- Qui est-ce? C`est toi?
- Oui, c`est moi..."

Foi aí que reparou que os lençois estavam peganhentos de tanto alívio, o ar quente de tanta saudade e os vidros embaciados de tão pouco ter.

13 de janeiro de 2008

Tenho saudades...


Tenho saudades de pegar na caneta,

Tenho saudades de escrever,

Tenho saudades de sentir “aquela” inspiração nascer dentro de mim!


Tenho saudades de ter medo do escuro,

Tenho saudades de dormir agarrado ao pluche,

Tenho saudades de sair a correr para a cama dos pais!


Tenho saudades de jogar futebol no intervalo das aulas,

Tenho saudades de chegar á sala de aula todo suado,

Tenho saudades de ir para casa com os joelhos todos arranhados!


Tenho saudades das férias grandes,

Tenho saudades de correr pelos campos lá da quinta,

Tenho saudades da Liberdade de ser uma verdadeira criança!


Tenho saudades da inocência,

Tenho saudades de não me preocupar,

Tenho saudades de fazer as coisas sem pensar no futuro!

O jogo da sedução



Tudo começa com um acaso.
Depois, o acaso repete-se.
Alguns dias passados, faz-se com que pareça casual.
O dialogo torna-se mais fácil e os olhares entram numa complicada rotina.
São eles que dão início aos jogos com os olhares desviados, às conversas com segundo sentido, ao dar e tirar, aos avanços e recuos, aos toques inconscientemente intencionais, aos toques inconscientemente consentidos, às hesitações e inseguranças e por fim à decisão com base num nada muito esclarecedor.
Depois vêm as SMS, as primeiras sempre inocentes, até que a inocência se vai gastando em favor de um cada vez mais exigente jogo de xadrez, disfarçado de pequenos textos electrónicos.
Elas dizem mais o que sentem, eles dizem mais o que querem.
Elas perguntam o porquê, e eles ficam um, dois, três minutos, às vezes bem mais, à procura de arranjar a resposta certa.
Eles não resistem ao sorriso delas e elas sentem-se à vontade para falar com eles de tudo.
Eles ouvem, rebatem e crescem, elas falam, aconchegam-se e sentem-se mais seguras...
Já começo a sentir falta deste processo refinado.
Falta do "querer" com nó na garganta... das securas da boca, das taquicárdias, do pensa rápido e age ainda mais depressa, do meter axas na fogueira e logo a seguir deitar água na fervura.
Decididamente, não há melhor jogo que este!...
O jogo das nossas vidas.

2 de maio de 2007

Gaunty…



Era uma tarde triste de Verão, caía uma gota de chuva aqui e outra ali, mas a cidade continuava no seu ritmo alucinante.
Vou no meio da multidão ao fim de mais um dia de trabalho quando te vejo, parecia que a cidade tinha perdido todas as pessoas, fiquei eu e tu.
Corro na tua direcção com o intuito de finalmente te voltar a tocar. Quando estou a chegar viras-te… não és tu! Virei-me apenas um pouco e desfizeste-te como se nunca tivesses existido.
Continuo de volta para casa e volto a ver-te ao fundo. Agora com maior precaução aproximo-me e toco-te!
− Gaunty?!?
Desculpe, pensei ser outra pessoa!...
Vejo-te em todo o lado, nos meus sonhos, na rua, no centro comercial, dentro dos carros enquanto espero no trânsito.
Ouço-te em todo lado, a chamar por mim nos meus sonhos, a chamar por mim no fundo da rua, a buzinar como um chamamento no trânsito.
Vejo o teu nome em todo lado, na identificação da senhora das finanças, no genérico da novela que acabou na TV, no jornal que leio de manhã, chamo o teu nome à colega da secretaria do lado no trabalho.
De todas as palavras que trocamos nestes anos, há umas que guardarei para sempre. Aquelas que sussurras-te ao ouvido como se de um segredo se tratasse, aquelas que ainda hoje te oiço dizer… Mas como tu dirias “eu penso demais!”
Entras-te no meu mundo em biquinhos de pés como bailarina desliza ao som da música, e como um bichinho entra na maçã foste caminhando até ao centro.
Se calhar já deste tudo!
Eu é que joguei, arrisquei e perdi.