Agora que tenho o meu carro na oficina há já qualquer coisa como duas longas semanas, tenho tido o privilégio de voltar a vasculhar todas as ruas da "baixa" cá do sítio. O que encontrei desta vez? Não sei... ... se para meu espanto, se para meu conforto, as iluminações de Natal, já começaram a ser colocadas!
Hoje vou andar devagar. Tão devagar que vou conseguir reparar nas obras que fizeram, nos prédios que pintaram, nas folhas que já cairam e nas pedras da calçada que já não estão lá.
Cada vez mais me convenço, que a vida se mede pelo número de pessoas com quem nos cruzamos ao longo dela. Na minha perspectiva o acto de viajar, contactar com outros povos, conhecer novas culturas, cheiros, hábitos, outros modos do sol se pôr e outras maneiras de respirar, são de certo alguns dos principais factores de satisfação pessoal. Ter a oportunidade de em algum ponto conhecer alguém, dizer-lhe o que penso e ouvir o que ela diz e como o faz, é quanto a mim, a única e verdadeira oportunidade de dizer que estamos vivos e fazer com que essa nossa pontual aparição na vida de alguém a mude de algum modo. Actualmente no canal National Geographic está a passar uma serie de 8 episódios em que retrata a viagem de duas pessoas, de mota, desde a Escócia até à cidade do cabo na Africa do Sul. Claro está que a oportunidade com que somos brindados em cada episódio de viajar até um espaço completamente diferente, nos transmite uma sensação que é impagável. Saibam o que é viajar sem ter um rumo e datas completamente definidas, andar ao sabor da vontade e do momento, sentir a insegurança permanente de andar pelo desconhecido e a adrenalina de nos dar-mos a conhecer. Quem sabe o que isto é...
Por isso e tudo mais, aconselho vivamente a que na próxima quarta-feira passem pelo canal National Geographic pelas 21h15 e deixem-se levar, até onde as imagens vos deixam.
Uma vez por outra era bom sentir o inverno assim, digo eu... Por enquanto vamo-nos contentando, com estes dias de um outono cada vez mais quente. ( se vos disse-se que ontem fui à praia e consegui apanhar um escaldão...).
Já agora, não se esqueçam que na noite de Sábado para Domingo a hora atrasa...uma hora. Por enquanto de inverno... só temos o horário.
Com as pernas pesadas, e mil fios de uma água quente que me escorre costas abaixo, respiro uma neblina de ar quente. Só desta vez. Só mais um minutos. Só até me enrrugarem os dedos. Só.
Pode haver quem pense que agora estou a escrever demais. Não sei, é capaz. Li algures que quanto mais ocupados estamos a viver menos tempo temos para escrever.
Não estou certo até que ponto isso pode ser verdade, mas uma coisa é certa... pôs-me a pensar.
Fui agora à caixa do correio, e lá encontrei dois panfletos com publicidade a grandes superfícies. Desfolhei, mas abrandei na zona do desporto e informática e de repente, veio à minha memória toda aquela magia fantástica que nos atingia a todos decerto pela altura do natal. Lembro-me que chegava a roubar os panfletos que ficavam mal colocados nas caixas dos correios que por aí ia encontrando, para que por instantes o tempo parasse todo à minha volta e começasse a mergulhar naquele mundo dos brinquedos. Micromachines... Tragabolas. Lembram-se dessa preciosidade feita de hipopótamos? E os Nikko Turbo, sempre sonhei em ter um, mas infelizmente não passou disso, pode ser que um dia o ofereça a um filho e lho roube enquanto ele estiver a dormir a sesta. Agora duma coisa, me posso gabar... Eu tive Legos!!! Dos grandes e dos pequenos, fiz casas, ambulâncias, carros dos bombeiros... que melhor brinquedo do que aquele que após se partir se pode reconstruir? Principalmente numa idade em que partir é o que acontece mais tarde ou mais cedo e nós nunca sabemos como...!
Imaginem vocês que o mundo desenvolvido entrava numa crise marcada, onde o comum cidadão deixa de ter dinheiro para pagar à entidade bancária, e por mais difícil que seja de acreditar, deixa de ter dinheiro para pagar o alimento do dia-a-dia. Imaginem vocês que determinados indivíduos pertencentes à direcção de um qualquer banco Americano, indivíduos esses que nós não conhecemos, faziam esquemas e falcatruas financeiras para conseguirem angariar um fundo que ajudasse o comum cidadão desempregado a pagar as contas em atraso. Imaginem vocês que todos os governos das potencias Europeias e Norte-Americanas se uniam num esforço sem precedentes para fazerem injecções de capital no tal fundo sugerido inicialmente pelos tais indivíduos que continuamos sem conhecer. Imaginem vocês que esse fundo é insuficiente, e a fome começa a alastrar de país para país. Imaginem vocês que aqueles indivíduos com esta bela ideia, decidiam abdicar do dinheiro que haviam pago de impostos para o seu país, bem como daquele para o qual descontaram a pensar no dia em que se iriam reformar. Conseguem imaginar? Eu também não. Mas nós fazemos isso por eles... porquê? Sinceramente não consigo entender por que razão e de onde vem tanto dinheiro para tapar buracos feitos por uma mão cheia de pessoas, ricas e de certezinha egoístas, pessoas essas que não conhecemos nem nunca conheceremos!
Se querem mesmo que vos diga... o que me apetecia amanhã era isto... Acordar sem ter que o fazer... Não ter responsabilidades, Não ter para onde ir, mas principalmente, não ter que ir. Sentir o frio. Pegar no carro e conduzir até lá à frente, Abordar alguém e dizer qualquer coisa... Vestir o fato e entrar para dentro de água. Não ser ninguém, estar sozinho. Só eu, e elas, as ondas
Saber que o teu amor e o meu amor são verdadeiros, e que caminham na mesma estrada, movendo-se a uma velocidade constante, encurtando a distância que os separa à medida que os dias passam…é divino! Olhar-te nos olhos e contemplar cada pormenor teu, é uma preciosidade que Ninguém, excepto eu, em tempo algum, jamais poderá Imaginar, porque... Amar-te assim, é simplesmente incomparável…
Ao lado do banco deles, um homem com os seus 60 anos consumia um rádio a pilhas que agora cantava "Je t´aime... moi non plus".
A força com que apertava o rádio, denunciava claramente uma história em tudo parecida com a daqueles dois, seguramente naquele banco ao lado, algures em 1968. A música seria decerto a de eleição, quem sabe a maior responsável por tudo aquilo que esse homem desconhecido e a sua memória viveram.
Hoje era a vez destes dois. Sentados num banco junto à margem do rio que reflectia nas suas pequenas ondulações as luzes da Torre Eiffel.
Ele virou-se de frente para ela, aproximou-se e fechou os olhos.
Sentiu as unhas dela deslizar nas suas costas, lentamente, tão mais lentas que aquele momento, que aquela noite, que aquele vento quente que teimava entranhar-se por entre as caras de ambos.
Tão mais lentas que ali ficaram enquanto se esquecerem deles e não se lembraram
dos outros...
- "ma maison est là...", disse ela, na esperança de não parecer muito directa.
- "où?"
Ela segura de si como ele nunca vira ninguém, puxou-lhe a mão e levou-o até à sua mota. Prometeu-lhe uma vista de Paris como ele nunca mais iria ter e assim o cumpriu. À chegada aos Champs Elysées, encostou à berma e passou-lhe a mota para as mãos, queria agora ser conduzida.
Eles subiram a avenida até ao Arc de Triomphe e ele amante da velocidade como sempre foi, acelerou até mais não puder, apenas para puder sentir os seios dela encostados a si.
Os braços dela apertavam cada vez com mais força, aquele que seria o único a fazê-la despojar de qualquer vontade para além de um simples agarrar de cintura, que ela disfarçadamente aproveitava para sentir o tronco definido.
Subiram os quatro andares por umas escadas de madeira bem estreitas, que iam chiando ao som dos pés e dos encontrões.
Ela empurrou-o contra a porta, fechando-a duma só vez. Virou-lhe costas e foi até à janela.
Abriu-a, deixando apenas entre eles e a rua, os cortinados que ondulavam ao som daquela noite quente em Paris.
De costas para ele, tirou o vestido e imaginou-o sem roupa.
Queria sentir-lhe o peito, e ser dominada pelas mãos dele.
A ele secou-lhe a garganta e a fala. Apenas queria ouvir.
Queria ouvir dela a respiração ofegante.
"- Tu vas e tu viens..."
E ouviu. Ouviu algo que nunca mais saberá contar, apenas sentir, e se o quiser voltar a sentir sabe que será apenas com ela.
Já com o sol a bater na cama, iluminando aqueles cabelos desordenados e aqueles corpos que nunca haviam sido de alguém... Elle a dit:
- Je t´aime...
Ele apertou-a mais que nunca, e assim ficaram até de novo adormecer, aquecidos pelo sol de uma manhã quente,
Aqueles corpos que nunca mais serão de mais alguém.
Ele um turista, agora pela primeira vez em Paris, tão dono de si, que só isso bastava. Ela uma independente, mas perdida no olhar, duma maneira que ele nunca perceberia e que atribuiu ao facto de ser Francesa. Trazia consigo uns olhos rasgados, mas tão rasgados que ao primeiro olhar o mandaram abaixo. Conheceu-a na Voie de GeorgesPompidouquando lhe pediu num Francês arranhado, para tirar uma fotografia com a Torre Eiffel atrás. "- Vousavez à sourire", dizia ela, perante o olhar atónito dele. "- Oui, oui, pardon". Sabia que tinha ficado com uma cara um pouco estranha, mas isso pouco importava. Não foi preciso muito para que aquele sotaque, de uma língua que ele nem sempre entendia, o tenha agarrado por completo. Ele de tudo fez para a agarrar também, e parecia que o tinha conseguido, quando ouviu da boca dela:
"- J'espèrepourvous aux dixheuresetdemie...". Ele não entendeu tudo. Entendeu o que lhe interessava e o que lhe interessava eram as palavras "esperar" e as "dez horas e meia".
Combinaram novo encontro junto ao Senna, pouco depois, tão pouco que ela mal teve tempo de ir a casa disfarçar o entusiasmo. Morava sozinha desde os 16, dizia que queria ser pintora. Tinha agora 23 anos e um 4º andar com águas furtadas, na Avenue d´Eylau com vista para a imponente Torre Eiffel e para o local onde eles se tinham visto pela primeira vez. Ele cedo se preparou. Estava alojado numa estalagem barata com espaço para uma cama feita com lençóis que aparentavam estar lavados, e uma janela que quando aberta fazia as vezes de uma varanda. A casa de banho era comum a todos os hospedes daquele andar e ele cedo se apoderou dela tomando um rápido banho quente, na esperança que isso apressa-se o relógio. Devagar, muito devagar chegou a noite. Entre a conversa em Francês, Português e Inglês que parecia não ter fim, ele deu-lhe a mão...
Meter a chave na fechadura, rodá-la. Descalçar, andar descalço. Sentar no sofá. Ter alguém. Falar sobre as horas, as que passaram e as que passarão. Comer aos bochechos. Ligar o rádio, ouvir uma voz sem cara. Ouvir aquela música, cantá-la mal. Sentir os teus pés sobre os meus, dançar lentamente. Refogado, o cheiro. Uma palmada no rabo, um sorriso. Jantar. Sala, televisão, um filme. Apagar a luz, chegar-me para o pé de ti. Baixar os olhos, sentir-lhes o peso. Olhar a televisão a espaços, apertar-te nos entretantos. Adormecer, acordar. Ir para a cama, lençóis frescos, esticar e encolher. Lançar o braço sobre ti. Inspirar fundo os teus cabelos. E agora sim, fechar os olhos com autorização para sonhar...
Ouvi esta música pela primeira vez ontem de manhã. Em verdade vos digo, que fiquei boquiaberto com esta sonoridade. Já anteriormente me haviam falado deste grupo. Já anteriormente o tinha ouvido. Mas foi ontem de manhã que lhe abri as portas dos meus ouvidos. Um misto de fado com não sei bem o quê, mais uma voz daquelas que canta a serio... Vale a pena ouvir este Fon Fon Fon!