28 de outubro de 2007

Encontros imediatos


Passo com o cartão nas portadas, que se abrem de imediato. Desço as longas escadarias que dão acesso ao metro. Do Cais do Sodré até à Baixa Chiado é apenas uma paragem. Sento-me nos bancos agrupados a quatro, e reparo em ti. Não és muito bonita, nem tens o corpo perfeito, mas tens uma expressão que transmite tranquilidade, fico com a sensação que te conheço. Isso mais do que tudo, é o que chega para me atrair numa rapariga.
Olho novamente para ti, trocamos um olhar fixo, e a custo, tento acreditar que esboças-te um sorriso.
Agora finjo olhar para outras pessoas, para o vazio do túnel escuro, e disfarçadamente procuro o teu rosto reflectido no vidro. Ao menos assim posso ver-te sem tu dares conta. Reparo que estás a olhar para mim, e fico sem saber que expressão fazer. Contraio as sobrancelhas, cerro os dentes ou respiro fundo? Qualquer coisa, só para ganhar mais uns cinco segundos.
Tento colocar uma expressão confiante, e arrisco um novo olhar, mas tu olhas novamente, e agora sim, acho que ambos sorrimos discretamente.
Tenho que te dizer qualquer coisa, mas não sei o quê. Vá Pedro, pensa em qualquer coisa!
Um "Olá está tudo bem?" está fora de questão!
Tem que ser algo original, tenho que a fazer rir, e despertar-lhe a atenção, mas agora como...
Chego-me à frente e digo:

Hipótese 1- "Tenho dois problemas!
Se eu te pedir o número, tu não me dás.
Se eu te der o meu, tu não me ligas..."
Ela sorri, e pergunta o meu nome. Chegámos à Baixa-Chiado e saímos ambos em passo lento. Vamos a conversar.

Hipótese 2-
"Com-licença."
Cheguei à Baixa-Chiado, levanto-me, mas ela continua sentada. Reparo que ainda me segue com os olhos, mas já lhe virei as costas.
Mais uma vez não tive coragem. Fico com a sensação que se lhe dissesse alguma coisa... não sei.
Agora o metro continua e ela vai lá dentro. Nunca mais nos vamos ver, quem sabe se ela não seria a tal.
Agora é que nunca saberei.

Quantas e quantas vezes não temos coragem para a hipótese 1



22 de outubro de 2007

Peso de um compromisso IV


Tlim, tlim!!! ( Já vi que a loja continua na mesma)
Tlim, Tlim, Tlim!

Indivíduo (I.)– Sr. Homem do pó?! Está aí?
Olho em volta e reparo que um novo produto está espalhado pela loja. "Pó mais leve e brilhante, haverá alguma coisa mais interessante?" - Em promoção: Compre hoje e comece a receber apenas em 2008".
Bem, a mim é que não me apanham nessa. Para pó, já chega o que tenho em casa.
Homem do Pó (H.P.) - Em que posso ajudá-lo? Espere! Você já cá esteve há atrasado, não foi?! Se não estou em erro, em Janeiro, certo?!

I.– Eeehhrrrr, certo. (desgraçado do homem ainda se lembra de mim)
H.P. - Pois é. Eu nunca esqueço uma cara! Então, ficou satisfeito com a nossa resposta, decerto que agora a quantidade de pó no seu quarto decresceu...

I.– Sim, sim, também confesso que tenho aspirado um pouco mais a míude. Mas não foi para isso que cá vim. Eu sei que algures na "Vila dos pedidos mais estranhos" existe uma loja que trata compromissos, e coisas que interferem com os relacionamentos, não sei se me estou a explicar bem.
H.P. - Ora bem, então o Sr. está com problemas para tomar A decisão. Que é feito dos homens do antigamente... Dantes não havia cá tempo para rodeios. Ainda me lembro. Comigo não era uma, eram várias ao mesmo tempo. Não havia cá espaço para exigências de exclusividade.

I.– Pois, mas agora as coisas são diferen...
H.P. - Qual diferente, qual quê. Vocês rapazes são é uns pulsos de cana rachada! Nem uma rapariga são capazes de dominar. Ficam para aí de queixo caído porque não são capazes de tomar uma decisão. Mas também não vou ser eu que irei dar conselhos.
O que o Sr. procura fica na Rua dos vários caminhos, ou seja, segue aqui a Avenida e enrola na rotunda, saindo na 2ª saída. É logo a primeira loja.

I.– Muito obrigado pela informação... (e pelo conselho que não quis dar)

19 de outubro de 2007

A dramática história esperançosa do Homem


Eram momentos em que tudo parecia não bater certo, ela receava qualquer tipo de situação, principalmente as desconhecidas.
- Arriscar…? Nem pensar…
Sonhava, é certo, idealizava um destino brilhante, com todas a condições básicas e necessárias para uma vida perfeita, ao lado de alguém capaz de responder a todas as suas solicitações.
Bonito de pensar, mas pouco fazia para o concretizar, as suas relações eram fugazes, recusava-se a entregar de corpo e alma a quem quer que fosse, e não hesitava um instante sequer em apresentar o seu estado de alerta demonstrado pelo receio de fazer alguma coisa…o MEDO!
- Será que o azar me persegue…?Vou à bruxa…
Agora sem objectivos, sem iniciativa própria e sem motivação, resta-lhe ficar ali sentada a aguardar que o seu futuro seja decidido pela leitura das linhas da sua mão.
A busca por uma vida perfeita, um emprego de sonho, um par ideal, os filhos, aquela magnifica casa, um automóvel potente, as roupas da última moda…enfim, parece que estamos todos condicionados pelas rotinas da vida.
Mas afinal quem é que inventou as etapas da vida… seja quem for, se algum dia disse:
- Nasce, cresce, estuda, forma-te, arranja casa e só depois casa-te e deixa descendência, deve-se ter esquecido de acrescentar que era apenas uma simples sugestão…não era para ser traduzido à letra…

14 de outubro de 2007

Soutien - 100 anos ao serviço da mulher... e do homem


O perfil,
As mãos,
O toque,
O tacto,
O arrepio e a imaginação

A respiração acelerada,
O desejo puro, selvagem,
O gemido sustido,
O espasmo e a contracção

Um dos protagonistas principais destas cena, faz agora anos, 100. Está sem dúvida de parabéns a sua criadora Mary Jacobs. Um bem haja pelo seu acto de rebeldia!... Nós agradecemos.

11 de outubro de 2007

Peso de um compromisso III


O despertador a tocar!
7 são as horas. Não resisto e compro mais 10 minuto de quente na cama. Viro-me para o lado contrário e lá estás tu. Não acordas-te. Fico a olhar para ti. Acho que hoje não te vou beijar na face. Já me habituei a entrelaçar as minhas pernas nas tuas. Dantes eram macias, agora são tuas. Já me habituei a ter-te aqui todas as manhãs, porque me querias todas as noites. Habituei-me a ligar-te quatro vezes ao dia, porque num dia quatro vezes eram poucas. Habituei-me a ter-te apenas a ti, porque é apenas a ti que tenho. Habituei-me a crescer, porque contigo tenho que ser adulto. Habituei-me a ser mais sério, porque contigo era a serio.
Acordas-te. Trocamos olhares de indiferença. O tempo é pouco e os 10 minutos, transformaram-se em 20, e a vintena já me vai sair cara.
Preparamo-nos os dois a pressa. Tu sentas-te na sanita enquanto eu lavo os dentes. Já não temos segredos, penso eu. Talvez fosse esse o erro, não escondermos nada um do outro, e consumirmo-nos tal qual uma faúlha atiçada ao álcool .
Dou por mim a escovar há tempo demais.
Ela nota que penso em alguma coisa, mas não diz nada. Sobe as cuecas e puxa o autoclismo. Chega-se ao meu lado, e chapinha a cara três vezes. Tenho a impressão que lhe está a pesar tanto como a mim...
...o compromisso.

9 de outubro de 2007

Peso de um compromisso II



E aquele olhar, o que significa? Avanço ou não?
Chego a casa e começo a pensar. Arranjo um motivo estúpido, mas um motivo.
Mando SMS ou telefono? Posso sempre optar por não fazer nem uma coisa nem outra.
Vou jantar, e não falo durante toda a refeição.
Percorro a lista telefónica... está a chamar! Se calhar não devia. Nada a fazer, ela atendeu.
Os dois juntos. Pagamos a meias, pago eu ou paga ela?
Estará a gostar? Estarei entusiasmado demais, ou ela convencida de menos.
Falo menos ou oiço mais? Já não sei o que é melhor...
Deverei ouvir?
Isto, aquilo, varremos todos os assuntos, excepto um: nós. É melhor deixar para o final. Sinceramente não sei que dizer. Tenho o "8" e o "80" tão juntos...
Todos os pretextos são válidos para me tocar.
A despedida. Avanço ou deixo que ela dê um sinal. Qual sinal?
Dou-lhe a mão, ou digo mais meia duzia de palavras forçadas?
Não me sai nada.
Encosto-a à parede.
Subo-lhe os braços.
Beijo-a outra vez? Será demais?
Viramos costas e ela foge como se nada fosse. Irá pensar, muito ou pouco?
E agora, mando-lhe SMS, hoje ou amanhã?
Dizer o quê? Tudo ou nada?
Mas e agora, tudo depende do agora.
Tenho a impressão que o pouco que disser hoje, pode mudar muito o amanhã.
Livre de compromisso ou com compromisso livre.
Quanto mais velho fico, mais pesada fica essa palavra: compromisso.
Sem liberdade ou com outra liberdade?
Não sei, sinceramente não sei. Depende do lado em que se está.
Dúvidas. Se as tiver com ela ao lado, então...
...então deixo de as ter.

8 de outubro de 2007

Peso de um compromisso I

-Um dia largamos tudo e fugimos juntos!
-Um dia... tu dizes sempre um dia, mas sabes que um dia, nunca é o dia!

Do outro lado do telemovel... o silêncio de quem consente