Logo agora que começava a ficar mais interessado pelo mundo da política, vem esta machadada que me deitou por terra a estranha sensação, que é a de pensar que percebia o que os políticos diziam...
Das duas uma, ou é de mim ou então estes discursos começam urgentemente a padecer de umas legendas em forma de tradução do "politiquês", para o nosso mais bem conhecido português... Confesso que por momentos cheguei a pensar que estava nos meus primeiros tempos de faculdade, numa aula de Introdução às Ciências Sociais...
(Nada tenho contra o nosso Presidente, mas um discurso mais adaptado ao povo, era capaz de ser mais eficaz...)
Épa, já a algum tempo que ando para desabafar. Tenho uma máquina de lavar loiça na minha cozinha, mas eu não estou nada contente, sim, estou em clara negação de fenómeno! Sinceramente, não entrou cá por minha vontade, pois voto na matéria ainda não tenho... mas está mais que visto que ela comigo não combina... ponto! O tempo de passar a loiça por água, depois colocá-la dentro da máquina, lavar os tachos à mão no lava loiças e rezar para que a sujidade saía toda... Não me venham cá dizer que dá menos trabalho, porque simplesmente não dá. O tempo, esse é superior e a sujidade entranhada...
Mas claro, custa muito sair 15 minutinhos de casa, andar 500 metros até à Escola Secundária mais próxima e desenhar uma simples cruz justificativa da nossa existência. É mais fácil deixar os outros decidir por nós...
Ao fim de três dias, consigui fazer aquele nó de gravata todo pomposo e distinto!
(Se há coisas que ficam para o resto da vida, esta será com toda a certeza uma delas... pegou em mim, levou-me para a frente de um espelho, desfez o nó da gravata dele e fez comigo, passo a passo...)
Uma daquelas semanas. Três despertadores. Um, o outro e o que acorda. Sono! Banho de água quente, fria, fria. Comer, muito. Fato, camisa, gravata, sapato. Postura. As costas, aí as costas. Este calor e ainda de fato e gravata. Depois do almoço... Sono! Novamente. Transpirar. O fim do dia e as dores nas pernas. Casa, água fria, quente, quente. Uma velha caixa de música aberta cheia de pó... Sofá... até que ele venha.
Corre o mês Agosto. 40 graus à sombra. Ele senta-se na esplanada com vista para a praia, ali bem no meio de toda a gente. Como de costume... todos os anos, da mesma maneira e no mesmo lugar. Calções curtos, t-xirt manga cava, chinelo gasto, cabelo moldado pelo repouso de uma sesta fortuita e cara descansada de preocupações. Põe a mão ao bolso e com o que encontra, cinco ou seis moedas pretas, manda vir algo que lhe permita gozar este momento, só seu. Debaixo do chapéu de sol, rende-se. Escondido no meio das conversas de tantos outros, vai sofrendo as consequências de um vento quente amolecedor, que o empurra para a tentativa frustrada de se refrescar com o que ainda vai restando de uma bebida perdida entre três cubos de gelo. Agita freneticamente o copo na esperança de multiplicar aquele resto de líquido, como quem ignora inocentemente o mundo à sua volta. Sem pensar que alguém o pode olhar, que vale a pena olhar ou mesmo ser olhado. Por pouco tempo. Lá ao fundo, surge alguém que vê de perfil. Um perfil dissipado e enevoado pelas ondas que o calor liberta num inicio de tarde como este. Corpo franzino, andar descontraído e olhar preenchido. Preenchido não por alguém, mas sim por uma certeza sobre si, só podia... Ela reparou que ele a olhava. Em jeito de provocação, não mais o espreitou mas fez por passar por ele a contar lentamente os passos que dava enquanto deixava para trás um rasto a protector que ele foi incapaz de ignorar. E foi assim que ele, duma maneira leve demais para ser credível, foi arrancado contra vontade de um estado de apatia e letargia em que se tinha deixado cair...
Quantos de nós ao voltarmos ao carro depois de uma ida ao cinema, um esporádico passeio ou um dia de trabalho, não encontrámos já a fantástica publicidade presa na porta do condutor de modo a que seja impossível entrar no carro sem dar conta dela?
Então e se depois de uma noite de trabalho, em vez da maravilhosa forma de publicidade, encontrassem um bilhete a desejar um bom descanso de uma forma que vos fizesse rir até que a jovem (engraçada até!) que ia a passar vos olhasse como se não fossem bons da cabeça?
Pois é… não é para todos!
É só para quem conhece a “Fome” e a "Vontade de comer”.
Meto a segunda. Ando mais um pouco. Pé na embraiagem... travão, ponto morto, páro. Espero um pouco. Meto a primeira, a segunda, o carro dá um solavanco. Pé na embraiagem... travão, ponto morto, páro. Espero mais um pouco. Meto a primeira, depois a segunda. Pé na embraiagem... travão, ponto morto, páro. O sol já se vai ponto,mas o calor dentro do carro continua bem alto. Olho para o lado, vejo as caras que ciclicamente se vão revezando, ora uma ora outra.
"...e agora a nova música dos Pearl Jam, é um regresso à muito esperado desta grandiosa banda, aqui na Mega FM..."
Começa a música a tocar e num repende a IC 19 ficou deserta. Aumentei o volume, pequei na minha bateria, ele era volante, ele era tablier, ele era até o ar e eu era o baterista dos Pearl Jam! Pouco mais de 3 minutos depois, volto satisfeito ao trânsito pastoso e embrulhado da IC 19 até que recebo uma sms que dizia:
"Eu bem que te acenei...mas tu não estavas decididamente neste mundo! P.S.- se tu eras claramente o baterista, eu confesso que tentei ser vocalista... há muito que não nos vemos, temos que combinar uma jantarada com o pessoal!!! Abraço"
Um concerto em plena IC... não estava mesmo nada à espera!
A noite continua quente, ao contrário do que seria de esperar para este Setembro...
Já nos habituámos a arrefecer em antecipação... Diria até que somos mesmo capazes de nem sequer apreciar este abafado, que teima em surgir apenas quando temos que ficar enfiados em casa.
Estas coisas do saber aproveitar o que nos é dado sem aviso, tem muito que se lhe diga...
Desabituamo-nos tão ferozmente e nem sequer damos por isso. Cumprimos horários, seguimos rotinas e lembramos deveres sem nos darmos ao luxo de gozar um pequeno direito.
O direito a ser, só isso.
Acho que tem a ver com um dom que algures deixei escapar...
Já um dia soube o que era aproveitar, ganhar, viver... lembro-me que para o saber, primeiro tive que desperdiçar e ser vencido.
Entrou em casa, aliviado por finalmente se abrigar naquelas velhas paredes, as suas. O chão ainda era de soalho, rangia a qualquer mudança de direcção e assinalava a marcha cadente que ele hoje sozinho usava.
O relógio de parede lá disse preguiçosamente as horas, eram vinte e três...
Ligou a caldeira e foi-se despindo vagarosamente à espera do sinal que indica que a água já está quente.
Entrou em modo automático para o poliban, abriu a água quente e ali se deixou ficar esquecido, de braços esticados contra a parede de azulejo, enquanto as palavras dela lhe iam ecoando sucessivamente na cabeça. Uma cabeça que agora parecia mais pesada que nunca...
...
Com a sua mão direita limpou uma pequena parte do espelho embaciado, apenas o suficiente para ver o seu rosto destruído.
Apoiou ambas as mãos no lavatório e ali ficou, na esperança que o nevoeiro lhe apagasse a realidade.