O sino da Igreja tocava as 10 horas, e eu trocava respostas monossilábicas com o padre. Ele perguntou-me porque é que tinha aquela cara...parecia tão triste num dia tão alegre. Eu em desespero, dizia que era dos nervos, mas no fundo sabia para onde apontava o meu coração...
Na segunda fila da esquerda, lá estava a vizinha da Marta, que por acaso era também a sua melhor amiga desde os cinco anos. A sua vulgaridade, a meu ver sempre foi a sua melhor arma e não sei porquê, se havia alguém com quem eu gostava de rir, era com ela.
Mais uma vez, fiz um rápido zapping pelos convidados em ambas as filas de bancos, e mais uma vez ela agarrou o meu olhar por segundos...
As portas abriram-se e ela lá vinha, linda, com aquele branco puro que ofuscava os meus olhos.
Chegou-se a hora da confirmação. Eu, como até aqui, fui arrastado pelo vento, e as velas apontaram o caminho do sim, sem sequer pedirem autorização ao vento do “Pacífico”. Não sei porquê, ainda tinha esperança que tu te opusesses quando te fizessem a tal pergunta.
Esse momento chegou, o padre perguntava então para a assembleia, se havia alguém dentro dos presentes que se opunha a esta união...
Eu como que em desespero, olhei para a segunda fila da esquerda, na esperança de ouvir o que agora, sabia que não ias dizer.
O pastor das minhas lágrimas, deixou fugir do rebanho aquela mais verdadeira e angustiante. Bem sei que era apenas uma, mas sem duvida a mais salgada que algum dia me iria correr pelo rosto. A partir do dia em que a Marta nos apresentou, tanto eu como tu soubemos que ali havia algo mais que amizade, mas simplesmente nos recusávamos a aceitar o que à vista de todos era obvio.
A lágrima deslizou lentamente para o canto dos meus lábios, e eu secamente provei o Teu sabor. Aos olhos de todos era a minha felicidade que ali estava estampada, mas aos olhos da Sandra era a confirmação do meu erro, e a razão do meu envelhecimento!
Calei-me, como sempre fiz até ali.
Calei-me como me iria calar daí a dois anos enquanto conduzia e olhava o céu na procura de um barco comandado pelo Capitão Gancho... No rádio tocava uma musica de uma Boy´s Band...e já não sei bem porquê, a única palavra que eu teimava em escutar era: “incomplete”