1 de julho de 2010

Agora Escolha II



Já não sabia se a queria ver.
Foi até à casa dela, abriu o portão, caminhou por entre um relvado alto e desleixado, até que se abeirou da porta.
Olhou para trás, na esperança de algo ou alguém que o fizesse voltar no que estaria prestes a fazer, mas nada. Só lá estava a estrada deserta, o seu carro e um candeeiro tombado, ainda aceso num amarelo torrado quase colado ao chão.
...
Bateu à porta e ela pouco depois abriu. Vinha numa camisa de dormir, larga e gasta, provavelmente porque essa seria a sua preferida.
Ele em silêncio, foi de encontro à ombreira da porta. Ela chegou-se enrolou com ambas as mãos a T-xirt dele, e já do alto dos seus bicos de pés, abeirou-se da cara com barba de três dias.
Ficaram assim alguns segundos.
Ele, inspirado na expiração dela, deixou-se estar, inerte a todo o que saía fora de si.
♂ - E se nos sai mal?
♀ - Fazemos tudo de novo...
♂ - Mas, e se nos sai mal?
♀ - Não sei que te diga...
♂ - ...
♀ - Pessoa certa na altura errada, já sei... Sabes, pensava que isso não ia acontecer!... Não contigo, não desta maneira...

Ele anuiu e voltou costas a tudo aquilo e não olhou de volta.
Entrou dentro do carro já de estômago a queimar e acelerou, acelerou tanto que deixou de ver cada ponto branco que vinha contra si.
Era apenas mais uma curva.

Já fora da estrada, recuperou para uma visão centrifugada, o carro saltou o rail de protecção, embateu violentamente contra uma árvore e capotou insistentemente encosta abaixo enquanto ele impotente, sentia os vidros estilhaçados entranharem-se aleatoriamente na carne derrotada.
Bastaram apenas três segundos, para que encontrasse lá em baixo o rio que hoje, seguia serenamente o seu curso .
O nível da água começou a subir às golfadas e com ele a sensação de pânico cresceu exponencialmente.
Absorvido na aflição, queria respirar, mas simplesmente não dava. Fez um esforço final, esticou o pescoço na esperança de conseguir um último fôlego, elevou os lábios quanto pôde e susteve a respiração.
Tentou atabalhoadamente libertar-se do cinto de segurança, mas os braços e as pernas aos poucos deixaram de obedecer. A água era muita e o corpo já respondia atabalhoadamente com movimentos involuntários.
Foi aí que se apercebeu que tudo estaria perdido. Lembrou-se de cada noite, do sabor de cada encosto, cada gemido, cada olhar, cada toque e cada suspiro... Esses nunca ninguém lhos iria conseguir tirar! Ali sozinho, voltou a viver tudo como se da primeira vez se tratasse. Eram os seus momentos, recordados numa orgásmica fracção vulcânica que se evaporou no instante seguinte.
Sentiu a plenitude que a recordação permitia viver, até que por fim, um último espasmo de dor e libertação, lhe percorreu todo o corpo...
Imobilizou-se, já com os braços ao sabor da corrente forte que atravessava o fundo do rio.
Tinha deixado uns olhos tristes mas bem abertos, numa esperança infundada de a ver uma última vez e lhe dizer que era todo dela.
...

♀ - Entras ou vais ficar aí toda a vida a olhar para esse o candeeiro? Ainda não percebi qual a tua paixão por ele, é apenas um poste de electricidade, que para além de não iluminar nada, está sempre a ir contra o pára-choques do meu carro...

Ele, perante o olhar incrédulo dela, deitou-se no alcatrão, e de cabeça para cima pôs-se a olhar o céu escuro, há muito que não o fazia.

♂ - Há quanto tempo não olhas um céu estrelado?
♀- Desculpa?
♂ - Perguntei, há quanto tempo não olhavas o céu à noite. Vem cá e deita-te ao meu lado.

Ela, ainda que assarapantada, acabou por lhe obedecer. Deitou-se juntou-se a ele, estatelada num alcatrão ainda quente e ali ficaram os dois, impávidos, como dois putos de cabeças coladas uma à outra, a olhar um céu que só naquele dia, descobriram, era estrelado.

♂ - Desculpa ter ficado tão longe!
♀ - Não me deixes só... nunca mais!

Fizeram...
...Tudo de novo - Klepht

3 comentários:

Maçã e Canela disse...

Dos melhores textos que já li aqui!
Parabéns!*

Anónimo disse...

you made me cry.. :'(
it's perfect!

daniela

dAwrioR disse...

Na dicotomia Racionalidade vs Emotividade, a Racionalidade leva quase sempre a melhor. Até que um dia, algum acontecimento (cosmicamente engendrado ou fruto do acaso) nos faz perceber que, ainda que de forma efémere, condicionada ou moralmente repreensível, um momento de reais e intensas sensações vale mais que uma vida de pensamentos.