Tenda, saco cama, colchão, lanterna grande, lanterna pequena, prato, copo, canivete, toalha multifunções, protector, escova de dentes, pasta de dentes, desodorizante, três pares de calções, dois pares de calças, 1 par de ténis, um par de havaianas, telemóvel sem carregador, uma guitarra, e o bilhete!
Chaves de casa, BI, cartão multibanco e... férias 2009!
Quando nós tínhamos aqueles três longos meses de férias...
O tempo para tudo, até para nos esquecermos que ele existia.
As vontades para lá de tudo aquilo que pensávamos querer e as aventuras vividas para cima de tudo o que era imenso.
Os lanches em casa dos amigos, as corridas de parachoques colinas abaixo, os joelhos esfolados, as guerras de pedras e as cabeças partidas.
Os curativos das mães e os jogos à bola com os pais.
As tardes em Belém, as voltas de bicicleta.
As regras não cumpridas e as obrigações ignoradas.
As pequenas mentiras aos pais e os grandes sermões porque a verdade sempre se soube.
Acordar às 10h00 deitar às 23h00.
As horas que passávamos sozinhos na rua.
O cheiro que a praia tinha naquela altura.
As noites quentes e o andar em tronco nu na rua.
As escondidas, os polícias e ladrões e o mata.
As paixões de verão e os amigos sazonais.
Os trabalhos de casa que não existiam, a televisão que víamos e o telemóvel que não fazia falta.
As imagens começaram a tornar-se turvas e as pessoas simples elementos externos à minha intervenção.
Um copo cheio de vergonha que mandei abaixo em dois tempos, umas calças descaídas já rasgadas de tanto no chão roçar e uns tenis velhos empoeirados eram o complemento da minha figura.
O mundo começava a virar com o propósito combinado de me mandar abaixo, mas eu resisti dessa e doutra vez.
As vozes à minha volta eram de alegria, mas à alegria já eu estava imune.
Rasguei com as vozes e rompi noutro caminho de curvas que ainda à pouco não estavam ali.
Que me empurrem se quiserem, não me importo... Cair e não mais levantar. Só eu, o chão e as pequenas areias que se vão cravando à minha pele e que eu vou suportando com este anestésico.
...
Ao fundo começo a ouvir um pequeno eco de palmas que sai de um aglomerado de gente. Vibram como quem vibra quando ouve algo que o conquista pela primeira vez.
Abro os olhos, levanto-me apoiado nestes primeiros acordes, sacudo as pedras e encosto-me a um poste com a cara marcada.
Ali fico, de olhar semi-cerrado a beber daquele negativismo que me traz à sobriedade por haver alguém que canta este meu momento.
De repente, vejo-me a embalar ao ritmo de umas teclas e a saltar sozinho de felicidade, solto do mundo e dono de mim.
O quarto encontrava-se numa escuridão penetrante. Era assim que ele o tinha deixado há três horas atrás quando apagou a luz na esperança de adormecer.
Na rua corria teimosamente um vento gelado que tocava uma chuva amassadora.
Ali estava ele, debaixo de vários cobertores e dos mesmos lençois de flanela vincados de tanta volta. Ali estava aquele corpo, frio, quase quebradiço de tão gelado, até que o telefone toca secamente...
"- Qui est-ce? C`est toi? - Oui, c`est moi..."
Foi aí que reparou que os lençois estavam peganhentos de tanto alívio, o ar quente de tanta saudade e os vidros embaciados de tão pouco ter.
Bem vindos ao Jornal de Informação, a nossa estação televisiva está agora em condições de avançar com o número de 42 pessoas infectadas com o Vírus da Imunodefeciência Humana, ou VIH como vem sendo chamado ultimamente. 13 nos Estados Unidos, 10 na China, 8 no Canadá, 8 em Inglaterra e 3 em Espanha.
Sabe-se que este número terá tendência a subir, no entanto ainda não existem razões para alarmismo dentro das nossas fronteiras.
A população em geral tem aderido em massa às recomendações dadas pelos serviços de saúde, pelo que cerca de 95% da população afirma fazer uso de preservativo. A informação tem passado de pais para filhos, professores para alunos e mesmo dentro dos próprios grupos de pares é possível observar uma preocupação acrescida por este novo fenómeno que acaba de surgir.
Agora passamos à próxima notícia, ainda no campo da saúde. Sabe-se que hoje é o dia mundial de combate à gripe suína, um dia em que a associação para o efeito procura consciencializar a população para o modo de contágio e as consequências que o contágio pode trazer para um indivíduo.
A presidente dessa mesma associação queixa-se de falta de visibilidade e apoio por parte dos meios de comunicação e do próprio governo, uma vez que segundo a mesma, o número de infectados continua a subir exponencialmente e as pessoas continuam deliberadamente a não tomar as devidas precauções, ninguém utiliza uma máscara...
Vamos ter agora oportunidade de ouvir um excerto da conversa que obtivemos com a Presidente da Associação para a Prevenção do Vírus H1N1
-"É triste vermos sucessivamente todos os dias os telejornais abrirem com notícias relacionadas com o VIH e ninguém dar espaço de antena para a nossa causa..."
Realmente às vezes parece que o nosso mundo está de pernas para o ar, ou então somos nós que o fazemos assim...
Gigante, sim gigante é como parece agora o refeitório. Olho à volta e ele continua deserto, deserto de ti. Pouso o tabuleiro distraidamente e entorno meio copo de água mas, também não tenho sede... Puxo de uma cadeira e sento-me vazio no centro de uma mesa cheia. Exporadicamente metem conversa comigo e esboço um leve sorriso. Longe, lá bem longe é onde ando... e assim vou respondendo com um olhar cada vez mais desfocado. Faço silêncio na esperança de me ouvir um pouco mais. Deixo-me escorregar ao longo de uma cadeira e ali fico preso, preguiçosamente desconfortável. Sempre pode ser que deixem de reparar em mim. Espero que sim... O telemóvel ainda não tocou, confirmo uma vez, confirmo outra vez. Se não tocou porque o procuro? Procuro-te a ti, que nunca mais vi... Assim ou daquela maneira, Procuro aquela, que é a tua maneira...