27 de julho de 2008

Lá na minha terra


Oiço um silêncio absurdo. Nada. Vazio.
Olho pela janela que rasga o tecto do meu quarto e vejo uma lua cheia, bolachuda, um céu negro e estrelas, muitas estrelas que assim iluminam discretamente esta serra.
Aqui do telhado vejo muitos outros telhados. Quase todos eles desabitados, carregados de história de umas quantas dezenas de pessoas que hoje têm filhos viciados em Lisboas e Portos.
Se as ruas pudessem falar..., a fonte..., aquela fonte. Foi à volta dela que comecei a ser adolescente.
Lembro-me de quando nos deitava-mos nos beirados dos telhados da casa da vizinha de olhos postos no mesmo negro que hoje vejo em silêncio. Recuso-me a pensar que tudo aquilo já passou, e recuso-me a acreditar que se agora gritasse desta janela ninguém ouviria este meu grito, que dantes incomodava tanta gente depois das 23h.
São agora 03h23. Nos vales dispostos na serra em frente vejo as luzes amarelas e brancas, a espaços um carro que lá levará algum casal de namorados vindo dalgum baile.
Começo a habituar os ouvidos e já oiço ao longe o ladrar de um cão incomodado por algum morcego.
É duro saber que as "férias de verão" já não se voltam a repetir.
É certo que agora temos outras coisas, que o dinheiro pode comprar, mas o dinheiro não compra os verões de há quinze anos, nem o sorriso de uns putos no mês de Agosto numa aldeia com vista para o mudo Rio Douro.
Fico com a impressão que daqui a quinze anos esta será provavelmente uma aldeia apenas com memórias, e dois ou três com presença para as contar a quem por ali passar.
Nessa altura estarão apenas os muros, as paredes, os caminhos cobertos de erva e a capela decerto fechada, fria e com cheiro a mofo que arrepia qualquer entrada.
A água já não passará nos infinitos regos para regar os campos.
Lembro-me de quando passavam juntas de bois em frente à minha casa, e a chiadeira do carro de bois anunciava ao longe a sua chegada.
Lembro-me dos dias de céu limpo e de calor ameno. Lembro-me das noites quentes e serenas em que famílias inteiras, iam ao café situado na aldeia mais próxima percorrendo uma estrada apenas iluminada pelo imenso céu estrelado.
Lembro-me de tudo isso. E será isso que ficará nas minhas memórias. Enquanto as tiver, a aldeia não morrerá!

3 comentários:

Filipa disse...

Eu estou tão próxima da "tua terra".. porém.. a mesma sensação: dificuldade em olhar o agora com saudade daquele antes tao agradável!!! Tudo mudou.. acredita!! Mesmo tudo..

Anónimo disse...

Fantástico como nas coisas mais pequenas cabem todos os sonhos! As minhas memórias estão todas em sitios especificos: adoro Lisboa, até acho uma certa piada a cidades grandes mas as minhas memórias de infância estão na "terrinha", num parque de campismo, numa praia que havia de ser a + pequena de todas lá do sitio!
As coisas mudam, mas não desaparecem e como dizes e bem, enquanto houver memória "a aldeia não morrerá!"

Clá

Anónimo disse...

Pois é muita coisa mudou.
Mudou o sitio, as pessoas, as vidas, os hábitos.
Acho que mesmo que voltássemos a estar todos juntos a ver as estrelas não seria igual, provavelmente iria gerar-se um clima estranho e um silêncio agonizante.
Digo agonizante pois seria estranho estar no meio de pessoas que um dia já foram grandes amigos nosso e que agora são completamente estranhos.
Mas, tal como tu disseste, enquanto tivermos as recordações "a aldeia não morrerá"

Tânia, a "bebé" LOL