13 de fevereiro de 2008

Rostos em Lisboa


Fiz o que tinha a fazer, e iniciei o regresso.
No meio do coração de uma Lisboa cada vez mais cheia de carros, e vazia de gente nos passeios, decidi ir a pé até ao Marquês.
A pressa, teimava em levar-me a reboque de uma multidão bem mandada, de passo apressado só porque os outros de passo apressado andavam.
Eu, mais teimoso que ela, reduzi a velocidade.
Decidi olhar para a rua, para as paredes, para o chão, para cima procurando um sol encoberto e em frente, para os rostos.
Um prédio em obras, um maluco que apenas passava, um casal de namorados, um desenho geométrico na calçada, um engravatado convicto ao telemóvel, uma comerciante à porta de um pronto a vestir vazio, um policia, um homem perdido, uma mulher presa... em ideias, e um pedinte com as pernas cravadas numa calçada, gasta de tanta pressa que teimava por ali passar todos os dias.
O passeio agora estreitou, e vou por dentro de um trilho rasgado por duas paredes de chapa que apenas me indicam que seguindo em frente, irei sair em algum lado.
Dobro a esquina, e olho para a terceira pessoa lá ao fundo. Cabelos encaracolados, longos e negros, com um andar simples e distante, próprio de que vai a ouvir a sua musica num mp3.
Agora que a foco bem, algo me chama a atenção.
Paro.
Não acredito.
A uma longitude de cinco ou seis anos atrás, e latitude de 350 Km algo falhou, não sei.
Incrédulo, espero pela tua reacção. Sorris-te.
Trocamos duas ou três frases de perguntas obvias e respostas rápidas. É complicado falar agora quando um passado ficou por resolver.
"Gostei de te ver", ouvi eu em tom de despedida.
Andei mais quatro passos e olhei novamente para trás, talvez para dizer só adeus ou apenas na esperança que também olhasses, mas já não estavas lá.
Um milhão de pessoas, 2750 km2, 365 dias num ano, 24 horas num dia, infinitos ruas, e fui dar contigo, ali, naquele inicio de tarde, ainda quente, num passeio de chapa.


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