29 de novembro de 2007

Às vezes também somos maus filhos


Hoje depois do jantar, sento-me na secretária do meu quarto com um livro de 500 páginas pela frente.
Após a primeira refeição em família desde há 9 dias, a minha mãe vem ter comigo ao quarto e senta-se num banco ao meu lado.
Começa a falar do trabalho dela, e de trechos lidos em livros ao longo desta semana, aproveitando sempre para em cada um deles dar mais um conselho.
Eu apenas com a cabeça no curso que vou ter este fim-de-semana, começo a desfocar o olhar e inconscientemente a pensar quando é que a mãe se vai embora para eu começar a ler.
Ela diz: "Filho, se calhar estou a incomodar-te?!"
Eu digo: "Sim, ainda tenho 400 páginas do livro para ler até amanhã."
A minha mãe levanta-se e vai-se embora. Por momentos fico aliviado, vou poder começar a estudar!
Pouco depois apercebo-me que não devia ter desfocado o olhar, nem feito aquela cara de aborrecido.
Se calhar o mínimo que um filho pode fazer depois de uma semana e meia sem dar a cara à mãe é ouvi-la 10 minutos.
À vezes também somos maus filhos...

17 de novembro de 2007

O comprimento de um cumprimento

Acho cada vez mais estranho a evolução que o cumprimento em Portugal está a ter.
Dantes era “Olá estás bom” e “adeus até amanhã”.
Ainda me lembro quando comecei a dizer “xau” e pensava para comigo, isto é um bocado estranho, dá a ideia de ser muito à frente, talvez um pouco à frente de mais para mim.
Depois apareceu o “tudo bem?”, onde ambas pessoas fazem a pergunta, mas nenhuma chega na realidade a responde-la. E se uma das pessoas disse-se “não”? O que faria a outra?
Mas o que mais me intriga é este súbito aparecimento do “boas”. Mas “boas” quê?
Quem é que se foi lembrar disto? E de que modo o tornou num hábito dos cumprimentos do nosso Portugal?
Cada vez mais limitamos os nossos diálogos à família e amigos chegados. Os vizinhos e conhecidos, nunca passaram disso. Não sabem quem sou, o que faço, do que gosto ou o que pretendo ser.
Cada vez mais vivemos para nós e menos com os outros.

5 de novembro de 2007

Sonhos e realidades




10h48.

Não estou a acreditar que me estou a levantar a esta hora, tenho tanto sono!
Os olhos ardem, apenas dormi três horas.
Levanto-me a cambalear e ainda com os olhos semi-cerrados ligo o telemóvel. Vou lavar a cara e...

Tim Tim, Tim Tim

Pego no telemóvel, desbloqueio o teclado e:

1 mensagem recebida

Tu - Tive um sonho contigo muito constrangedor!!
O que é que tu andas a fazer nos meus sonhos??! Lol. 10:48

Eu - Constrangedor: adj. Que constrange, angustiante.
Lol, então e para ti o que é constrangedor? 11:26

Tu - Sim angustiante e... Vergonhoso... Ou que cria constrangimento / "atrapalha" lol.
12:21

Eu - Vergonhoso: adj. Tímido; pudico; desonroso; obsceno; que tem vergonha Lol! Então diz-me tu que é que ando lá a fazer... Vê lá se hoje não volto a aparecer.
12:35
Tu - Pois... Foi isso tudo mesmo... Literalmente! Lol. Não sei o que andas-te lá a fazer... Isso gostava eu de saber... 12:47

Eu- Então da próxima vez que lá aparecer, pergunta-me... pode ser que eu te responda :) lol 12:52

Tu- Ai é? Então e não respondes hoje porquê?
12:56

Eu- Porque ainda não sei ler as tuas pulsões inconscientes... É tudo mais fácil quando se está lá dentro... 13:25

Tu- Lá dentro?? Onde?? 13:30

Eu- Do teu inconsciente...! 13:58

Tu- Pois, calculei que fosse isso... 14:10


Eu e Tu- Tudo por causa de um sonho... lol
15:36

Ainda agora não acredito que Symia me enviou esta sucessão de mensagens. Mais difícil parece ser compreender a facilidade com que eu desejei entrar nesse sonho.
Talvez também eu tenha sonhado um pouco. Sabe bem sonhar, sinceramente já me tinha esquecido do que isso era.

Por vezes recusamo-nos a aceitar os nossos sonhos, talvez porque sejam carregados de realidade em demasia, ou talvez porque saibamos que nunca passarão disso mesmo, de um sonho.

2 de novembro de 2007

Frio, onde andas?


Toca o despertador.
Tiro os cobertores de cima de mim, e sinto um arrepio completo.
Lavo a cara com o menos água possível.
Bebo leite quente, muito.
Fecho-me dentro do Kispo.
Calço luvas e bato palmas só para ouvir o seu som abafado.
Embrulho-me no cachecol, e saio à rua a pensar agora estou protegido.
Inspiro fundo pelo nariz e expiro prolongadamente pela boca, só para ver a coluna de fumo, tal qual um fumador. Faço-o várias vezes e já me doem os olhos. Tenho o olhar focado na boca e já vejo dois nariz.
Ponho as mãos nos bolsos das calças, e não as tiro enquanto corro para o autocarro.
Já dentro do autocarro reparo que todos têm o nariz vermelho... engraçado.
- "Já não fazia frio assim há uns tempos valentes", (diz alguém nos bancos atrás de mim)
...
Chego a casa, ao quentinho de casa.
Tiro casaco, cachecol e luvas. Visto uma roupa deslavada de andar por casa, e calço um par de meias bem grossas.
Lá fora, vejo as copas das árvores balouçarem insistentemente.
Sabe tão bem estar cá dentro!
Ligo o aquecedor e ali fico.


Começo a ter saudades deste ritual